Semana de combate à hanseníase comemora lei proposta por Tião

Por muitos anos, mais do que incompreendida, a hanseníase foi uma doença que fez com que o preconceito se tornasse política pública. Atingindo pele, nervos e levando à perda de membros, seus infectados por muitos anos foram isolados em leprosários, arrancados de suas famílias, amargando uma vida sem dignidade.

Gleilson Miranda/Secom

E contra essa doença e todo o terrível período que milhares de pessoas passaram, começou em Rio Branco nesta segunda-feira, 18, a Semana Estadual de Combate à Hanseníase. A solenidade, no Teatro Plácido de Castro, comemorou também os 35 anos de fundação do Movimento de Reintegração dos Hansenianos (Morhan) e os 10 anos da lei 11.520/2007, de autoria de Tião Viana quando senador e autorizada pelo então presidente Lula, que garantiu a toda pessoa isolada à força pelo Estado uma pensão indenizatória vitalícia.

Tião Viana entendeu a necessidade de se compensar os hansenianos isolados por suas perdas pessoais enquanto atuou como médico infectologista nas colônias. Lembrado com carinho por dezenas de hansenianos como o homem que os tratou com dignidade humana, a lei que ele criou beneficiou cerca de dez mil pessoas, sendo 700 apenas no Acre.

“O Morhan simboliza a defesa da dignidade das pessoas que vivem com hanseníase que foram discriminadas, esquecidas, colocadas à margem da história, e ele simboliza a luta contra esse preconceito. E nós, do Acre, colocamos essa semente por meio do [Francisco] Bacurau, que criou este movimento, e hoje temos o melhor modelo do país de combate à hanseníase, reconhecido pelo mundo, e tivemos o apoio do Lula, que acolheu o projeto de indenizações”, disse o governador.

Educar para não repetir

Com uma longa história de vida, a viúva de Bacurau, Terezinha Prudêncio da Silva, ligou sua vida ao Morhan. Ainda jovem, observou uma mancha na pele, e ao se consultar com um médico recebeu a notícia de que tinha hanseníase. Acabou ficando 20 anos na Colônia Souza Araújo – leprosário mais famoso do Acre e que hoje ainda abriga muitas vítimas da doença que não tiveram para onde ir –, e só ao terminar seu tratamento pôde sair para tentar uma vida normal e constituir família.

“Agradeço ao governador e ao Lula, que beneficiaram não a mim, mas muitas e muitas pessoas com essa lei. Eu tive o poder de comprar um carrinho que ando até hoje nele, e essa indenização foi uma bênção. Minha segunda família é o Morhan. É lá onde eu me sinto firme e muito bem”, conta a senhora, que caminha a passos lentos com as sequelas da doença.

Segundo o coordenador do Morhan no Acre, Elson Dias, ainda é necessário combater a doença, além de educar para que não haja preconceito com as vítimas. “O Acre registrava nos anos 80 pelo menos 110 casos da doença para cada 100 mil habitantes, hoje são menos de dois. O trabalho em conjunto com o governo do Estado levou a diminuir esses casos. E o trabalho da Semana vai até sexta-feira, com mobilizações no Terminal Urbano, nas rodoviárias e no Horto Florestal.”

Em visita ao Acre para palestrar na abertura da Semana, o vice-coordenador do Morhan nacional, Arthur Custódio, completa: “O Acre já foi o líder nacional da hanseníase. Hoje  é um dos melhores estados no tratamento e prevenção, e precisamos lançar mão do que foi positivo no Acre e transferir para o Brasil inteiro. Ainda somos o primeiro país do mundo em incidência da hanseníase. Precisamos pautar a questão da doença”.