Melhoria da Qualidade da Banana no Acre

Virgínia de Souza Álvares, Gilberto Costa do Nascimento

 

A banana é a quarta fruta mais produzida no mundo, com uma área de plantio estimada em 5,1 milhões de hectares e produção de 107,4 milhões de toneladas, conforme dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Ainda de acordo com a entidade, o Brasil é o quarto maior produtor da fruta, com cerca de 6,8 milhões de toneladas produzidas em 2015. Segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a fruta é cultivada em aproximadamente 485 mil hectares, com valor de produção de 5,7 bilhões de reais.

No ranking nacional da produção de frutas, a banana ocupa o terceiro lugar no volume de exportações e receita, além de ser a mais consumida na forma in natura, conforme dados do Anuário Brasileiro de Fruticultura (2015). Essa preferência explica-se, principalmente, pelo sabor extremamente agradável da fruta, além da facilidade e rapidez no descascamento. Projeções do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) indicam que a produção nacional de banana deverá sofrer um acréscimo de 9,1% entre a safra 2014–2015 e 2024–2025.

No Acre, a bananeira é a principal fruteira cultivada. Segundo o IBGE, em 2015 o estado produziu 106.268 toneladas da fruta, em uma área de 8.100 hectares, alcançando o maior valor de produção dentre as culturas perenes (64,4 milhões de reais), representando 65% do valor comercial das lavouras permanentes. Os números confirmam a relevância econômica da bananicultura no Acre, podendo ser comparada a outras atividades produtivas importantes para o estado como castanha-do-brasil (R$ 39,2 milhões), açaí (R$ 7 milhões), borracha (R$ 5,2 milhões – somando cultivo e extração) e café (R$ 4,6 milhões).

Embora a bananicultura seja relevante econômica e socialmente, problemas de ordem tecnológica dificultam o seu desenvolvimento no Acre. Um dos principais entraves da atividade no estado é a baixa qualidade dos frutos na etapa de pós-colheita. A comercialização da fruta entre produtores e compradores ocorre predominantemente em cachos. Grande parte da produção é transportada dessa forma ou acondicionada em caixas, com empilhamento excessivo, o que ocasiona esmagamento de frutos e perdas irreversíveis. Além disso, no estado ainda não existem casas de embalagem que permitam a realização de procedimentos de manejo pós-colheita como despistilagem dos frutos, despencamento, subdivisão de pencas (confecção de buquês), lavagem, classificação, pesagem, tratamento antifúngico, colocação de selos de qualidade e embalagem. A ausência dessas estruturas inviabiliza cuidados adequados no processo pós-colheita e afeta a qualidade do produto final, dificultando a competição com a banana oriunda de outros estados.

Outro agravante para a bananicultura acriana é a sigatoka-negra (Mycosphaerella fijiensis Morelet), doença que ataca os bananais, reduz a produção, influencia a qualidade dos frutos e diminui a longevidade dos cultivos. Atualmente a banana produzida no Acre é exportada apenas para o Amazonas e Rondônia, uma vez que esses estados também convivem com a doença e ainda não implantaram o Sistema de Mitigação de Risco (SMR). A legislação que trata desse sistema, de jurisprudência do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), permite ao agricultor a manutenção de sua atividade e livre comercialização do seu produto para outras Unidades da Federação, desde que o SMR esteja implantado no estado.

A adequação a exigências legais para a segurança fitossanitária na convivência com a sigatoka-negra preconiza a implementação de cuidados básicos de pós-colheita que ajudam a eliminar riscos de disseminação da doença e permitem que o produto seja comercializado com qualidade. No Acre, as cultivares de banana mais plantadas e comercializadas, Prata e D’Angola (conhecida regionalmente como banana-comprida), são bastante susceptíveis à doença. A adoção de medidas fitossanitárias e de práticas adequadas de manejo pós-colheita pode ampliar a participação dessas cultivares no mercado local e representar a abertura de novos mercados em âmbitos regional e nacional. Paralelo a isso, procedimentos pós-colheita são essenciais para reduzir o desperdício de frutas e outros produtos alimentícios cultivados no estado.

Segundo estimativas da FAO, cerca de um terço de todos os alimentos produzidos para consumo humano no mundo é perdido ou desperdiçado, equivalente a 1,3 bilhão de toneladas/ano que custa US$ 750 bilhões para o mundo. As frutas, de modo geral, representam 16% do desperdício total de alimentos. Ainda de acordo com a entidade internacional, o volume de perdas no início da cadeia de abastecimento, incluindo a produção, manuseamento e armazenagem pós-colheita, representa 54% do total de desperdício. Nos países em desenvolvimento o problema é causado, principalmente, por limitações financeiras e estruturais em técnicas de colheita, armazenamento e transporte, combinadas com condições climáticas favoráveis à deterioração dos alimentos. O Brasil está entre as nações que mais desperdiça alimentos no mundo em termos de consumidor e comércio varejista, em contraste com a ausência de alimentos na mesa de um grande contingente. Dados do IBGE estimam que 7,2 milhões de pessoas passam fome no País ou convivem com a falta de uma dieta equilibrada.

Um dos maiores índices de perda pós-colheita ocorre na produção de banana, entre 30% e 40%, devido à elevada perecibilidade e susceptibilidade da fruta a danos mecânicos. A baixa qualidade dos frutos influencia a rentabilidade da atividade, mas esse quadro pode ser revertido por meio da adoção de procedimentos adequados de manejo da produção. Entretanto, a escassez de informações técnicas sobre perdas nas pós-colheita, de custos de produção com implementação de tratamentos adequados em casa de embalagem e no sistema tradicional de produção, além de recomendações práticas de pós-colheita para melhoria da qualidade dos frutos às condições do Acre, dificulta a implementação de processos de aperfeiçoamento. Um projeto da Embrapa Acre, em fase de articulação, pode mudar essa situação.

Diferentes instituições de pesquisa, ensino e fomento à produção integram a iniciativa que tem como principais objetivos diagnosticar as perdas pós-colheita de banana e suas causas no estado, avaliar os tratamentos dos frutos mais adequados para a região e capacitar os diversos agentes da cadeia. Os resultados gerados pela pesquisa vão beneficiar produtores, comerciantes e consumidores com fruta de qualidade, menores perdas, abertura de novos mercados, satisfação e aumento da segurança alimentar.

Virgínia de Souza Álvares, Engenheira-agrônoma, doutora em Fitotecnia, Pesquisadora da Embrapa Acre

Gilberto Costa do Nascimento, Engenheiro-agrônomo, mestre em Desenvolvimento Regional, Analista da Embrapa Acre.