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Preço da borracha cai e produtores abandonam seringueiras

O produto que marcou a ocupação do Acre, sua própria existência e anexação do Brasil enfrenta hoje sua pior crise de mercado, levando ao desânimo produtores que apostaram e que acreditaram na indústria do látex da seringueira como opção econômica. Se no início do século XX a borracha fazia a riqueza dos seringais amazônicos, se promovia a ocupação do Acre e uma guerra para tornar a região brasileira, agora, no século XXI, no limiar de sua segunda década, a borracha alcança sua menor cotação relativa no mercado internacional e o sul do país, que desde a década de 1980 se tornou a maior região produtora enfrenta uma crise sem precedentes, forçando a eliminação de milhares de seringueiras plantadas, para dar lugar a outros cultivos  economicamente mais fortes.

Foto: Reprodução

O quilo da borracha de plantações em São Paulo e Minas Gerais está sendo vendida no mercado interno por R$ 2,20, bem abaixo do custo de produção, estimado em R$ 4,00. Na década de 80 passada, quando as seringueiras começaram a ser um bom negócio no Brasil, o quilo chegava a alcançar US$ 2,50, equivalente hoje a mais de R$ 9,00.

O sudeste do país começou a se destacar no planto depois do fracasso da exploração comercial do planto de seringueiras na região Norte, inclusive no Acre, por conta da infestação do mal das folhas, o fungo Mycrocicluos Ullei, que dizima as árvores. O Acre chegou a ser objeto de dois faraônicos planos econômicos de disseminação da cultura da seringueira, para substituir os seringais nativos, os PROBOR I e II, que gastaram rios de dinheiro fácil, a juros de 6% ao ano e não resultaram na produção de um litro sequer de látex, um dos grandes escândalos ainda não contados e dissecados no país.

O Brasil, de púnico produtor mundial no início do século XX perdeu espaço com a entrada de produção de seringais plantados no sudeste asiático, especialmente na Malásia, de sementes contrabandeadas por exploradores ingleses. Um novo ciclo da borracha aconteceu durante a 2ª grande guerra, quando os japoneses cortaram o fluxo da borracha para o mercado, mas logo o Brasil e o Acre, a despeito da qualidade de seu produto, perderam espaço no mercado mundial.

Reportagem da Folha de São Paulo dá conta que os produtores de São Paulo já começam a exterminar seringais por causa da super oferta do produto no mercado mundial.

Queda

Diz a reportagem que “a queda do preço do látex no mercado tem feito produtores de São Paulo, principal estado produtor, demitir funcionários e até eliminar árvores em produção. Já são quatro anos de preços baixos, especialmente devido ao excesso de produção em países asiáticos que dominam o mercado mundial, como Indonésia, Tailândia e Malásia, segundo a Apabor (Associação Paulista de Produtores e Beneficiadores de Borracha)”.

Um produtor com mais de 27 mil árvores disse à folha que “o cenário está péssimo, e a mão de obra tem migrado para a construção civil ou outras culturas. Estou operando com só 50% dos sangradores [trabalhadores que fazem a coleta nas árvores”.

Segundo reportagem do jornal paulista, publicada dia 9 deste mês, muitos produtores já tomaram medidas mais radicais, como a extração de árvores para substituir a cultura. Uma propriedade em Pitangueiras eliminou 19 mil seringueiras. Outra, em Colômbia, próxima à divisa com Minas, extraiu 80 mil árvores. Cana e soja são algumas das culturas adotadas por quem tem deixado o setor.

Segundo os entrevistados pela reportagem, a produção, que em março do ano passado era vendida por R$ 3,20 o quilo, hoje é cotada a R$ 2,20. O mínimo teria de ser R$ 4,20. No auge da atividade, em 1980, o quilo era comercializado por US$ 2,50 (o equivalente hoje a R$ 9,50).

Diego Esperante, diretor executivo da Associação de produtores de borracha de São Paulo comentou que “ela não ficou com preço mais baixo só aqui, mas no mundo inteiro. O que piora nossa situação é o custo de produção, maior porque os outros países produzem como subsistência; 90% da borracha do mundo é produzida em regime familiar”. O preço baixo preocupa ainda mais porque a Malásia passa por um momento de entressafra e nem isso foi suficiente para os preços reagirem.

Apesar dos problemas, diz o jornal,  a previsão é que a safra brasileira atinja 190 mil toneladas de borracha, ante as 183 mil toneladas do ano passado, das quais 58% estão em São Paulo.

O Brasil, que está entre os dez maiores consumidores, produz só 40% do que consome —entre 400 mil e 420 mil toneladas por ano, num mercado que tem como principais compradores China e Índia.

A safra do látex em seringais plantados começa em outubro e vai até julho/agosto, quando ocorre a queda das folhas. Após um mês de descanso, a produção é novamente retomada. O auge é o período de abril a julho, tradicionalmente mais frio e sem chuva.

Embora tenha havido erradicação de árvores no país, a safra vai crescer porque estão começando a produzir látex seringueiras plantadas no mais recente boom do setor, entre 2010 e 2012. As árvores demoram em média sete anos para iniciar a produção, têm vida útil de 30 a 35 anos e, por ano, produzem de 7 a 10 quilos de látex. Já o plantio de novas áreas caiu muito, o que se refletirá na produção na próxima década. Também produtor rural, o engenheiro-agrônomo Paulo Fernando de Brito disse que o cenário poderia ser outro se houvesse barreiras tarifárias mais fortes para os importados.

“O Imposto de Importação chegou a ser de 14% em um ano, mas voltou a 4%. Com isso, a borracha do Sudeste Asiático entra no país num preço que atrapalha muito o mercado”, disse ele, que também chefia o EDA (Escritório de Defesa Agropecuária) de Barretos, órgão da Secretaria da Agricultura paulista.

Brito afirmou que consegue receber R$ 2,35 por quilo do látex extraído de suas 7.000 seringueiras plantadas em Pirajuba (MG), mais que o valor pago em São Paulo.

Quadro

58%

da safra de látex do país vem do estado de São Paulo

190 mil

toneladas de borracha é a previsão para a safra brasileira

400 mil a 420 mil

toneladas ao ano é o consumo do país

35 anos

é o tempo máximo de vida útil de uma seringueira

7 a 10 kg

de látex uma seringueira produz anualmente