LGBTI+  e o mercado de trabalho: estereótipos, receio e caminhos

Foto Rafael Neddermeyer/ Fotos Publicas

Mesmo com os recentes avanços da sociedade na discussão sobre as questões de gênero, marginalização e preconceito ainda são obstáculos para a inserção de LGBTI+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersex) no mercado de trabalho. Nesta reportagem, mostraremos histórias de três de pessoas que buscam vencer estigmas relacionados à orientação sexual, identidade de gênero e preconceitos enraizados pela sociedade.

Além de lidar com estas dificuldades diariamente, esse público ainda luta contra os altos índices de violência que o cerca. De acordo com o Centro de Atendimento à Vítima (CAV), vinculado ao Ministério Público do Estado (MPE-AC), nos primeiros meses de 2016 cinco pessoas foram mortas de forma violenta por motivações homofóbicas.

Esse número, no entanto, é subnotificado; os índices de violência são alarmantes contra os componentes do grupo no Brasil. O presidente da Associação dos Homossexuais no Acre (AHAC), Germano Marino, diz que não é possível contabilizar dados relacionados ao trabalho e nem à violência contra travestis e transexuais no Estado.

“Dados oficiais não existem, é difícil conseguir esse recorte, principalmente no atendimento do serviço público”, ressalta.

Diante deste cenário, tímidas ações mostram que a situação pode mudar. O nome social validado por meio do Decreto 8.727, de 28 de abril de 2016, existe como uma ferramenta que facilita a coleta de dados trabalhistas e aumenta a notificação de casos de violência. “Com esses decretos como do uso do nome social, vão ajudar muito a remodelar atendimentos e inserção de dados”, acrescenta Germano Marino.

Barreiras e olhares tortos

Laura Silva** é jornalista e publicitária. Ela é casada há dois anos e enfrenta, junto com a esposa, barreiras e olhares tortos. Na juventude, Laura revela que sofreu preconceito e perdeu oportunidades de estágios e empregos por conta da sexualidade.

“Eu fui indicada para um estágio e, chegando lá, foi nítido que a pessoa não gostou do meu ‘perfil’. O que foi lamentável, pois ela levou em consideração o perfil pessoal e não o profissional”, conta.

O preconceito relacionado à aparência foi algo que Laura sempre conviveu.

“Eu nunca escondi que gostava de mulheres e o meu estereótipo também deixa isso evidente. No meu ambiente de trabalho e pelos locais onde trabalhei, nunca precisei esconder ou mascarar isso”, conta. Do seu ponto de vista, o mercado de trabalho é mais cruel com homens homossexuais.

“Pela minha experiência, quando o homem se assume gay o mercado é bem mais preconceituoso”.

Brenda Souza** namora Laís Pimentel** há 3 anos. Brenda é assistente de alunos com necessidades especiais em uma escola na Capital. Para ela, não há necessidade em expor certos detalhes de sua vida pessoal em seu ambiente de trabalho. Entretanto, Brenda tem receio de sofrer preconceito caso venha assumir seu relacionamento para os colegas.

“Eu percebi que as pessoas de lá são muito conservadoras e religiosas. Pelos comentários e ‘brincadeiras’ que elas fazem em ‘momentos de descontração’ eu percebo que existe uma visão bem limitada, então eu tenho certeza de que iria ser mal vista de alguma forma”, lamenta a assistente.

Prostituição como opção?

Licenciada em Geografia e Ciências Sociais pela Universidade Federal do Acre (Ufac), a funcionária pública Viviane Gomes trabalha de terça a sexta-feira em uma função que ela chama de convencional; nas noites de sábado a segunda-feira, ao apagar das luzes, exerce a discriminada prostituição de rua.

A transexual iniciou na prostituição quando ainda possuía estereótipo do gênero masculino, aos 14 anos, nos encontros com os turistas que visitavam a Capital acreana e frequentavam a região central da cidade. Diferentemente de outras transexuais, Vivi, como é popularmente conhecida, teve uma vida estável e não recorreu à atividade como única ou última opção para ganhar dinheiro e se sustentar. Pelo contrário, o mundo do sexo por encomenda lhe despertava curiosidade e fascínio, o que a motiva até hoje.

“Terminei a faculdade e ao me inserir no mercado de trabalho eu me deparei com uma situação: eu não conseguia mais abandonar a prostituição. Depois de ter lido muito, estudado muito, eu rompi muitas barreiras e me tornei uma pessoa mais decidida, mais determinada, essa nova visão de mundo fez com que eu tivesse coragem de assumir a prostituição”, revela Vivi.

A prostituição para Viviane inicialmente representou uma maneira de satisfazer anseios antigos que ela considera ser um desejo.

“Eu assistia programas sobre prostituição quando era criança e as histórias de prostitutas me fascinavam”, conta.  Hoje o cenário é diferente de quando iniciou em 2008. A atividade deixou de ser uma “aventura” e se tornou, ao longo dos anos, uma forma de incrementar a renda. Sendo assim, a “diversão” e agitação das ruas se tornaram repetitivas, como a rotina de trabalho diário.

“Tudo que você faz com a intenção de ganhar dinheiro estressa, fica rotineiro, é um trabalho como outro qualquer. Quando você começa a ver a prostituição como trabalho, como forma de sustento, aquilo não se torna mais prazeroso. Você sai com os clientes, não sente mais prazer, tem um tempo a cumprir, por mais que ele seja bonito, ele é um cliente”, diz.

Apesar disso, ela garante que não vive do trabalho da prostituição e viveria sem o dinheiro da atividade, mas seria uma vida mais limitada financeiramente. Ou seja, essa suposta alternativa de renda se torna uma “necessidade” em relação às despesas mensais que ela tem. Além do seu sustento, Vivi ajuda na criação de seus sobrinhos e nas despesas da família.

“A prostituição acaba sendo por necessidade também, porque o salário que eu ganho não é suficiente. Não é suficiente para o padrão de vida que eu gosto.  Eu gosto de comer bem, beber bem, viajar, consumo substâncias ilícitas, ajudo minha família, pago a faculdade da minha irmã, ajudo na criação de dois sobrinhos que são como filhos. Tenho uma propriedade para sustentar e isso requer gastos, tenho que comprar roupas, gosto de ir ao shopping e o que eu ganho não é o bastante para tudo isso”.

Sobre o estigma da vida fácil e preconceito relacionados à prostituição ela argumenta: São pessoas que falam sem conhecimento de causa. Eu tenho trabalho convencional, conheço pessoas que trabalham. Eu sei o que é a prostituição e o que é o trabalho convencional, eu posso fazer esse paralelo”.

 

*Adrielle Farias e Andressa Mendes são acadêmicas do curso de Jornalismo da UFAC.

**Os nomes reais das entrevistadas foram preservados.