Bolsonaro: ‘Nenhum filho meu manda no governo’

Com dois meses de governo, o presidente Jair Bolsonaro ainda tenta estar completamente à vontade no cargo que ocupa. “Vivo em prisão domiciliar sem tornozeleira eletrônica, mas isso faz parte da regra do jogo”, soltou, em momento de descontração, durante um café com jornalistas, ontem, no terceiro andar do Palácio do Planalto.

(foto: Marcos Correa/PR)

Rei das redes, com 3,4 milhões de seguidores no Twitter, 10,6 milhões no Instagram e 9,4 milhões no Facebook, e compulsivo usuário do WhatsApp, o presidente já consegue enxergar o abismo de diferença entre a vida de um campeão de votos e um homem que veste a faixa presidencial. Sabe que a estratégia que o levou à vitória não é a mesma que garantirá o sucesso de seu governo, a aprovação das reformas necessárias e a popularidade. Assume tom mais moderado, inclusive com a imprensa “tradicional”, como ele se refere e com quem promete, inclusive, inaugurar, a partir de agora, um novo tipo de relacionamento.

No encontro de quase uma hora com jornalistas, Bolsonaro comeu pouco, emocionou-se ao falar sobre o atentado durante a campanha, contou piadas e só foi reticente ao comentar a crise com o ex-secretário geral da Presidência Gustavo Bebianno — “Página virada”, disse. Reforçou que os filhos não mandam no governo, defendeu algumas propostas de campanha, como a redução da maioridade penal, e admitiu que o governo pode recuar em alguns itens da reforma da Previdência enviada para o Congresso. São eles: a idade mínima para a aposentadoria das mulheres, a aposentadoria rural e o Benefício de Prestação Continuada.

Com o presidente, estavam o vice, Hamilton Mourão, o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, e o porta-voz Otávio do Rêgo Barros. Do primeiro encontro de aproximação com profissionais da imprensa, participaram, além do Correio, os jornalistas Monica Gugliano, Alexandre Garcia, Heraldo Pereira, Cláudio Humberto, Sonia Blota, Luiz Kawaguti, Denis Rosenfield, Sérgio Amaral, Mauro Tagliaferri e João Beltrão.

Rito presidencial

Encaro o cargo como missão. Confesso: cheguei à Presidência não sei como…

O atentado à faca

Mais cinco minutos, e eu teria morrido. E, na hora, o que pensava era em deixar minha filha órfã. Dei muita sorte, não era para estar aqui. Agradeço a Deus e aos profissionais de saúde que salvaram a minha vida. Agora, estou bem, passei 17 dias em hospital nesta segunda fase de cirurgias, mas a recuperação foi ótima. Sou professor de educação física, paraquedista, atleta, o corpo reage mais rapidamente.

Investigação da PF

Certamente, tem mais gente por trás. Havia interesse em me atingir, em me tirar do páreo. Alguém bancava o Adélio Bispo (autor confesso do atentado). Há muita coincidência na história toda. Existem vídeos que mostram ele em lugares onde os meus filhos frequentavam. Falta o “Imposto de Renda”, falta saber quem bancou. Fala-se até em PCC. Mas a Polícia Federal descobrirá. Acredito na Polícia Federal. O inquérito será concluído em um mês.

Sérgio Moro

Foi uma atitude corajosa ele vir para o governo, deixar um emprego com estabilidade por outro em que pode ser demitido a qualquer momento. Tivemos pequenos atritos no decreto das armas, mas tudo foi contornado. Temos uma excelente relação.

Maioridade penal

O homem só respeita o que teme. Não dá para continuar com esta situação que afeta a vida do cidadão de bem, tem reflexo no ensino e faz com que famílias de brasileiros inocentes sofram e sejam vítimas da violência. Os presídios estão lotados, ok? Mas é melhor deixá-los lá dentro presos do que aqui fora matando os cidadãos. Deixa eles lá dentro, com o povo deles. E nós aqui fora.

Reforma da Previdência

Não vamos ceder em aspectos importantes, mas dá para tirar uma “gordurinha” aqui e ali. Alguma coisa será mudada, mas a proposta não será desfigurada. Sem a reforma, não há solução, não há perspectiva para o Brasil. Preciso do apoio da imprensa. Há interesse de todo mundo em aprovar. O Brasil pode ficar numa situação muito complicada. Com a suspensão do pagamento dos salários dos servidores, queda da bolsa, do dólar e o governo completamente enfraquecido. Não podemos passar pelo o que a Grécia passou.

Previdência feminina

Podemos reduzir a idade mínima da aposentadoria das mulheres de 62 para 60 anos.

BPC

Podemos mexer na regra do BPC (Benefício de Prestação Continuada), pago a idosos e deficientes de baixa renda. O projeto aponta que o grupo passaria a receber salário mínimo ao completar 70 anos (cinco a mais que a regra atual). Antes disso, a partir dos 60 anos, teriam direito a apenas R$ 400 por mês, sem correção monetária. A proposta para aposentadoria rural também pode ser alterada.

Mídia

Eu estendo a mão para vocês. Precisamos da ajuda da imprensa profissional, da imprensa tradicional. O papel de vocês é fundamental para a democracia. Prometo conversar mais com vocês. As redes sociais não resolvem tudo. Há uma estratégia de comunicação e vamos precisar de todos os brasileiros para aprovar as reformas.

Demissão do Bebianno

Lamento o ocorrido, mas não poderia ter tomado outra decisão. É um casamento prematuro que, infelizmente, se desfez. De minha parte, não tem mágoa.

Paulo Guedes

Eu disse ao Paulo Guedes: “Você entende tanto de política quanto eu de economia”.

Congresso

Nas reuniões com o Congresso sobre Previdência, só dois ou três deles me pediram cargos. Não vamos ceder na questão da distribuição de cargos políticos em troca de apoio. Loteamento de cargos não vai acontecer. Continuaremos sendo rigorosos na escolha de técnicos para os cargos no governo.

Pequenas coisas

A gente tem de se preocupar com as pequenas medidas. Nem tudo é macro. Um exemplo é o valor que um cidadão paga para tirar uma carteira de motorista. Chega a R$ 2 mil. Por exemplo, vocês (jornalistas): não dá para esquecer que um dia foram “focas”. Não dá para esquecer o que passaram. Eu não esqueço tudo o que ouvi do povo nas ruas. Preciso trabalhar para fazer as mudanças que o brasileiro espera.

Toma lá dá cá

Me pediram um ministério. Eu disse (ironizando): só se for o Ministério da Fazenda. Aí, ninguém quer, né? Porque é pauleira. Nisso, eu não vou ceder. O Brasil precisa mudar. Tem de mudar isso, ok?.

Conversa com Maduro

Não descarto, mas dentro de critérios democráticos. Para falar da volta da democracia, com instituição de eleições livres e de observação internacional. Se até (Donald) Trump falou com o presidente coreano, por que não posso falar com Nicolás Maduro?

Problemas da fronteira

O que o Exército reclama na fronteira é da segurança jurídica.

Embaixada de Israel

Está em banho-maria. Depois da declaração de que apoiaria a transferência da embaixada de Israel de Tel-Aviv para Jerusalém, os problemas apareceram. Até o Trump levou oito meses na negociação. E a ministra Tereza Cristina (da Agricultura) ficou preocupada com a relação com os países árabes e me pediu para repensar a decisão. Tenho muito respeito por eles e o respeito vale muito mais do que qualquer gesto simbólico.

Redes sociais

Tenho muitos seguidores no Twitter, mas sou controlado. O que uso mais é o WhatsApp, e fiquei chateado quando o aplicativo reduziu os grupos para cinco pessoas. Quando mando recados para os ministros, tenho de replicar várias vezes.

Momento de ascensão

Tudo ganhou uma dimensão maior na época em que comecei a falar do kit gay, que era um absurdo. Ali, fui acusado de homofóbico, racista e misógino. Nem sabia o significava ser misógino. Me explicaram que era quem não gostava de mulher. Perguntei: então, é quem gosta de homem?

Relação com ministros

As reuniões acontecem de fato, seguem um rito e as coisas são mais organizadas. Quando soube de Brumadinho, liguei, e três ministros já estavam no avião indo para lá. Eu ligo para os ministros, dou sugestão. As coisas aqui funcionam.

General Mourão

Passei 17 dias no hospital, e o Mourão me substituiu on-line e off-line. Deu umas caneladas na imprensa. Ele também sabe dar caneladas.

Lei Rouanet

Osmar Terra, ministro da Cultura, Desenvolvimento Social e Esportes, veio conversar sobre a Lei Rouanet com a proposta da liberação de R$ 50 milhões para os benefícios fiscais. Eu disse não, isso tem de ser reduzido. É muito dinheiro. Estamos avaliando valores menores.

Nova líder do governo

Joice Hasselmann é uma boa líder, sugestão de Rodrigo Maia, e ele sabe o que vai enfrentar.

O coração das pessoas

Falo das coisas simples, que tocam o coração das pessoas.

Vida de hoje

Vivo em prisão domiciliar sem tornozeleira eletrônica. Mas isso faz parte da regra do jogo. Seria bom mesmo estar na Praia da Barra da Tijuca tomando uma cerveja.

Polêmica do Hino

Eu pedi para fazer a proposta, mas porque havia uma lei que já previa isso. Qual o problema de cantar o Hino nas escolas? Mas liguei para o ministro e recomendei a ele que pedisse desculpa pelos excessos.

Filhos e o governo

Nenhum filho meu manda no governo. Eduardo e Flávio quase não vêm ao Palácio. Carlos comparece mais aqui. Os meus filhos não têm problemas com os generais. Conversei com os três e passei a fazer um filtro nas publicações nas redes sociais. Mediar um pouco ajuda. Não posso deixar de receber meu filho. Aí, não…

Crises na base aliada

Estamos construindo uma história. É preciso e exige tempo. Ela ainda está em formação.

Michelle Bolsonaro

Ela é evangélica e faz um trabalho social com deficientes, mas sou suspeito para falar. Quando casei, diziam a ela: “Como você casou com um sujeito grosso desse jeito?” (Risos). Mas eu sou sensível. Se fosse mulher, casaria comigo…

Carnaval

Vou me enclausurar em Brasília, usar o WhatsApp para conversar com ministros e parlamentares. Bem que seria bom tomar uma cervejinha na Barra, mas aí não vai dar.