Massacre em escola alerta para ‘desajustes sociais’ e ‘clima de intolerância’

“Essas coisas não aconteciam no Brasil.” A fala do vice-presidente, general Hamilton Mourão, horas depois do massacre na escola de Suzano, demonstrou a preocupação de autoridades brasileiras de que casos de atiradores em escolas, comuns nos Estados Unidos, estejam se tornando cada vez mais frequentes por aqui.

(foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, manifestou o mesmo receio e disse que esse tipo de violência “não faz parte de nossa cultura”.

O Brasil está longe da cultura de liberação de armas dos norte-americanos, que, para ele, contribuem para a ocorrência de assassinatos nas escolas. O aumento dos “desajustes sociais” e o clima de intolerância explicam em parte o aumento dos casos no país, avalia Edson Luiz Knippel, advogado criminalista e professor de direito na Universidade Mackenzie.

Nas últimas duas décadas, foram nove casos de alunos, ex-alunos ou funcionários que invadiram escolas com armas e atacaram colegas no Brasil. Em comparação com os Estados Unidos, o número é pequeno. De acordo com levantamento do Escola Naval dos EUA, que funciona como centro de pesquisa sobre temas de segurança interna no país, somente em 2018 foram registrados 94 incidentes com armas de fogo nas escolas norte-americanas, com 55 mortes.

“Vivemos um período em que se fala muito a respeito das armas de fogo no Brasil. E isso é um fator que aguça o interesse de muitas pessoas para as armas.

Além disso, atravessamos um momento de grande intolerância e muita violência. Mas, em casos como esse de Suzano, é preciso entender as situações específicas das pessoas que cometeram o crime.

Em comparação com os casos dos EUA,  temos grande diferença. Por lá, a liberação da compra de armas é total, se encontra armas nos supermercados. Não creio que vamos chegar a esse ponto no Brasil”, explica Knippel.

O criminalista ressalta, porém, que já existem semelhança significativas nos casos de violência nas escolas brasileiras. “Em todos esses casos dos últimos anos, vimos atiradores do sexo masculino, com comportamentos parecidos, que passavam por problemas e sofriam com uma espécie de falta de papel social. Além da questão das armas, temos que entender as questões sociais e motivações que envolvem aqueles que cometeram os crimes”, diz.

O vice-presidente Hamilton Mourão, avaliou que a flexibilização da posse de armas, autorizada pelo presidente Jair Bolsonaro no início do ano, não tem relação com a tragédia no interior paulista, uma vez que o armamento dificilmente seria legalizado. “Vai dizer que a arma que eles estavam usando era legal? Não tem nada a ver”, disse Mourão, negando que o caso influencia no debate em relação ao porte de armas.

O general se disse preocupado com o aumento desse tipo de casos no Brasil e que o acesso de jovens e adolescentes a jogos de videogame com conteúdos violentos pode explicar tais episódios. “É muito triste. Temos de chegar à conclusão por que isso está acontecendo. Essas coisas não aconteciam no Brasil. A minha opinião é que hoje a gente vê essa garotada viciada em videogame. E videogames violentos. É só isso que fazem”, disse Mourão.

O presidente do STF, ministro Dias Toffoli, lamentou o crime que tirou a vida de estudantes e funcionários da Escola Estadual Raul Brasil. “Violências como essa não fazem parte da nossa cultura. A juventude traduz futuro e esperança. Não podemos aceitar que o ódio entre em nossa sociedade”, disse Toffoli em mensagem no início da sessão do tribunal na tarde de ontem.