Dilemas de Dilma

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16/01/2012 - 21:47:48

Aparentes contradições terão de ser conciliadas este ano pelo governo Dilma. Ao mesmo tempo em que rigoroso controle da inflação se impõe, a redução dos juros constitui imperativo. O corte de gastos é imprescindível? Também o é a retomada dos investimentos. O maior dos desafios será encontrar o equilíbrio que permitirá perseguir metas aparentemente incompatíveis. Mais ainda, em período eleitoral.

Medida oficial da inflação, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou 2011 no exato limite programado: 6,5%. Menos de um ponto percentual mais e esse seria considerado um resultado desastroso. Se há o alívio de a taxa não ter ultrapassado o teto, preocupa que o índice anual seja o maior apurado desde 2004, quando ficou em 7,6%. Significa que uma sirene passou a zumbir ininterruptamente na economia brasileira.

Da mesma forma, uma luz vermelha pisca incessantemente na porta do Comitê de Política Monetária. Responsável por conter a alta dos preços com a manipulação dos juros, o Copom teve de dosar o amargo remédio quando percebeu que o efeito colateral se agravava com as sequelas produzidas pela crise internacional, contendo a expansão do PIB. Reverteu, então, a curva ascendente da Selic, até chegar aos atuais 11%. A expectativa é de mais um corte esta semana, de 0,5 ponto percentual. Mesmo assim, o juro básico segue, em termos reais (descontada a inflação), no topo do ranking mundial.
Não bastasse, há a questão do câmbio.

O fortalecimento do real perante o dólar ajuda a arrefecer a pressão inflacionária ao baratear as importações. Simultaneamente, contudo, desestimula a produção interna. Ou seja, trata-se de mais um delicado ponto de equilíbrio a desafiar a competência do governo, que paga o custo do grau de confiança adquirido pelo país, transformado em polo de atração crescente de aplicações financeiras e investimentos internacionais (também em consequência dos abalos nos Estados Unidos e na União Europeia).

Uma receita para o enfrentamento desse conjunto de conflitos é a austeridade. Sem dúvida, o corte de gastos governamentais é obrigação irrefutável. Por sua vez, há toda uma infraestrutura a ser construída para a preservação do ambiente de crescimento. Mais: as obras para a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 precisam ser aceleradas. Está aí mais um dilema a exigir equilíbrio extremo do Estado. E a corda bamba estará ainda mais instável com a multidão de candidatos às eleições municipais disputando verbas para agradar a eleitores.

Primeiro da administração Dilma Rousseff, o ano que terminou se arrastou sob pesados fardos, com troca de ministros e perda de tempo em infindáveis explicações de “malfeitos”, para usar expressão da própria presidente. Agora, em meio às chuvas que castigam boa parte do território nacional e à inclemente seca no Sul do país - que ameaçam a produção, projetando para logo adiante o espectro da inflação de alimentos -, a casa precisa ser arrumada sem demora. Há esperanças, inclusive de uma reforma ministerial. Se vier, que não seja para mera acomodação política, mas para azeitar a máquina, livrá-la dos trancos de 2011 e torná-la mais racional e menos onerosa. Do contrário, a delicada travessia de 2012 estará tão vulnerável quanto as populações hoje em áreas de risco.