IPHAN no Acre implementa ações para resgate do patrimônio histórico

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06/06/2012 - 22:24:55

Antonio Stélio
Repórter Especial

As antigas casas de arquitetura vernacular, construídas em madeira, como a da professora Florentina Esteves, no Segundo Distrito, o Mercado Velho, no Centro, as duas casas da família de Fosch Jardim, na rua Marechal Deodoro, o Palácio Rio Branco, o Quartel Central da Polícia Militar, na Praça da revolução e O Casarão, também no centro da cidade, são algumas das construções que podem vir a fazer parte do patrimônio histórico  brasileiro. Pelo menos é o que se espera, se depender do esforço do IPHAN no Acre, com equipe chefiada pelo superintendente Deyvesson Gusmão.

“Os estudos contratados já estão em uma fase avançada e tudo caminha para que os resultados sejam encaminhados ao Conselho, em Brasília, que deve definir pelo tombamento destes bens”, informa Gusmão.

O IPHAN tem como sua principal atividade proteger e zelar pelo patrimônio histórico e artístico do país, e sua superintendência foi instalada no Acre em 2009. Antes, em 2005, apenas existia um escritório, com um homem, uma mesa e um telefone, subordinado à Superintendência de Rondônia.

Mas, segundo Deyvesson Gusmão, a atuação do escritório não foi inócua. “Nós não partimos do zero. Os relatórios deixados pelo escritório foram os pontos de partida do nosso trabalho, e, depois do planejamento estratégico, a superintendência iniciou os trabalhos nos estados, efetivamente, a partir de 2010. Agora, estamos colhendo, mesmo de forma incipiente, os primeiros resultados”, afirma.

Hoje, em todo o Acre, somente existe um bem tombado como patrimônio cultural brasileiro, que é casa de madeira e estilo vernacular onde morou e foi assassinado o líder seringueiro Chico Mendes, em 1988, na cidade de Xapuri. A casa também é reconhecida como patrimônio cultural do estado.

Para Deyvesson Gusmão, um historiador extremamente dedicado ao resgate do patrimônjo cultural acreano, o desafio é cumprir tudo o que foi planejado para definir o que deve ser o patrimônio histórico do Acre no cenário nacional.
“Nesse quesito, o Governo do Estado se adiantou substancialmente e reconheceu alguns bens que nós ainda estamos na luta pelo reconhecimento e, para tanto, estamos nos estruturando nos estados para consusbstanciar as decisões em Brasília. Estamos otimistas quanto a isso”, assegura Deyvesson.

Ele lembra que, pela formação histórica do Acre, não existem aqui conjuntos arquitetônicos como os coloniais, mas a noção de conjunto mudou, e as possibilidades também. Ele diz, por exemplo, que a cultura dos seringais e do próprio período em que o Acre foi Território Federal, podem cumprir as características históricos e artística para tombamentos e registros.

“Nosso trabalho é colocar a equipe em campo, realizar os estudos, receber um parecer jurídico favorável e enviar ao Conselho que define o tombamento ou o registro. Os proprietários dos bens são notificados deste processo”, ressalta.

IMPORTANTE

Segundo o superintendente do IPHAN no Acre, o trabalho realizado no estado é de fundamental importância, pois ele é inédito na Amazônia e pode levar a ter a mesma ocorrência nos demais estados da região. “Nosso estudo é pioneiro e pode despertar os demais estados que têm características semelhantes às do Acre no mesmo período, como em localidades de Rondônia, Pará, Amazonas e até no interior do Amapá”, registra.

SERINGAL BOM DESTINO

Entre os itens do estudo que podem ser reconhecidos como Patrimônio Histórico Nacional, no Acre, está também o Seringal Bom Destino, um dos que mais ilustram o apogeu do período da borracha na região. O Seringal Bom Destino foi aberto entre 1878 e 1882. O coronel Joaquim Victor da Silva, proprietário do seringal, além de uma bela sede com vitrais franceses, telhas portuguesas e outros luxos importados, também importou uma igreja de ferro da Alemanha, de onde foi trazida desmontada diretamente para o Bom Destino.

GEOGLIFOS

Geoglifos são vestígios arqueológicos representados por desenhos geométricos de grandes dimensões e elaborados sobre o solo, que podem ser melhor observados quando vistos do alto. No Acre, eles foram percebidos em 1977, quando o professor Ondemar Dias, do Instituto de Arqueologia Brasileira do Rio de Janeiro esteve nesta região localizando e estudando sítios arqueológicos, como parte do inventário nacional que estava sendo realizado pelo Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas da Bacia Amazônica. Em meados da década de 1980, o professor Alceu Ranzi, ao olhar pela janela de um avião, em voo comercial entre Porto Velho e Rio Branco, percebeu uma estrutura circular dupla, na margem da BR-317. Na época, em avião monomotor, uma equipe sobrevoou a área e o registro fotográfico foi obtido pelo fotógrafo Agenor Mariano. Em 1999, em outra viagem, um voo comercial de Porto Velho para Rio Branco, novamente Ranzi, percebeu uma dessas gigantescas estruturas da janela do avião. Passou então a pesquisar o assunto, primeiro conseguindo pequenos aviões para sobrevoar a área, e depois visitando pessoalmente, em terra, para a obtenção de medidas. A partir de 2000, com as fotos aéreas obtidas pelo fotógrafo Edison Caetano, os geoglifos do Acre tiveram repercussão nacional e internacional.

AYAHUASCA

Outro estudo que está em andamento pelo IPHAN no Acre é o conjunto de ritos praticados pelos adeptos da ayahuasca no Acre, doutrina que nasceu aqui, e se espalhou pelo Brasil. Para o órgão, trata-se de uma expressão cultural imaterial que pode sofrer registro e com isso carimbar a cultura acreana com mais um selo nacional. Os rituais diferenciados, por exemplo, praticados pelo pessoal do Alto Santo e União do Vegetal, são algumas das características de que se ocupa o estudo. Quando ele estiver concluído, deve ser mais um trabalho recomendado para registro cultural em Brasília.