Um talento que reluz calado

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20/06/2012 - 22:14:49

"Acho que o Acre é uma terra predestinada a algo importante, pois, sem dúvida, esconde traços de ser um dos chacras do planeta, que cedo ou tarde se mostrará à humanidade"

(Dalmir Ferreira)

Antonio Stélio
Repórter Especial

Seu nome e sobrenome carregam a simplicidade dos que nasceram como uma extensão das raízes e cipós, dos troncos e folhas, e das gentes e dos animais que habitam este lugar por amor e resistência, seja por arte ou crença. Mas, não se escapa que sua gente veio de longe, onde mares e mares salpicavam a terra.

Talvez por isso o batizaram de Dalmir, o que veio do mar!

Um homem precisa está sobrecarregado de amor para criar. E Dalmir, ao que consta, sempre viveu em seu interior uma rebelião de paixões que, como combustível de sua imaginação, o levou por navegar por todos os nossos os rios, e a caminhar por incontáveis varadouros. O resultado é este: temos um dos ativistas culturais mais solenes de nossa história. Ele nasceu pronto para isso.

Não por outra coisa, Dalmir Rodrigues Ferreira é reconhecido artista plástico (xilogravador), poeta, memorialista e ativista cultural, com obras e exposições no Brasil e no exterior, sem falar em criações extemporâneas, que ele próprio julga miúda, e não releva para maiores amostragens, a não ser para um ou outro visitante de sua oficina-museu, sob o auspício de uma aguardente valorosa.

Desde a infância, este bom espírito não se furtou a nenhuma espécie de aprendizado, principalmente, quando estes se ligavam às artes, daí que, podemos supor, cedo ficou patente seu interesse pela pintura, poesia, artesanato, teatro, fotografias e tantas outras manifestações artísticas, que acabariam o envolvendo, de uma maneira ou outra.
Dalmir é um artista, acima de tudo.

Dele, muito já se escreveu, inclusive: que é também poeta, memorialista e vanguardista cultural.  Possui em seu Atelier-Museu, a maior biblioteca particular de artes e vasto acervo de obras em seu Estado. É um artista de vasto conhecimento sobre a Amazônia, fruto de viagens, trabalhos e vivencia nela desenvolvidos ao longo de sua vida.

Mas, o que devemos registrar neste texto é algo definitivo: Dalmir é daqueles espíritos que faz parte do que chamamos Brava Gente Acreana, ou seja, um ser humano que parece nascer com um propósito especial: o de fazer desta terra, aquilo que muitos sonharam e lutaram para torná-la, simplesmente: um lugar bom para um povo bom. Por isso, muitos deram a vida.

Cada um - a sua maneira - faz a sua parte. Dalmir faz a sua através da arte e da participação política discreta, pois, seu nome figura na instalação e fundação das mais diversas entidades ligadas a nossa cultura. É assim que ele atua, seja como ativista, seja como artista propriamente.

Sua postura de acreano se revela na plenitude no Juruá ou em Berlim, qual um Hélio Melo, e sua rabeca falando a língua universal. Se a história fosse retilínea, talvez perdêssemos Dalmir como personagem ativo da nossa contemporaneidade, mas como ela se revela cíclica, o registramos para que o vejam, amiúde, na roda do tempo.

Palavras do artista sobre a sua terra

O Acre - Vejo o Acre como uma terra em formação em todos seus aspectos, se você observar vai ver que não só as duas guerras mundiais como a revolução industrial tem do Acre uma contribuição fundamental, sem que isso tenha se revertido em benefício significante. Acho que é uma terra predestinada a algo importante, pois sem dúvida esconde traços de ser um dos chacras do planeta, que cedo ou tarde se mostrará a humanidade. Sua gente não foge a esse processo de formação, mas esse atrelamento a nação brasileira sempre se mostrou de poucos resultados, sobretudo quanto às suas elites dominantes, quase sempre tão pobres quanto ignorantes. Suas heranças ainda terão que passar por forte processo de conscientização e melhoramento.

A história

Acho que cada pessoa nasce com uma missão neste plano. Quanto mais consciência disso você adquire, maior será a capacidade de contribuir com o processo. Tenho lutado com muita confiança (e ajuda) para que a cultura em todos seus aspectos se torne cada vez mais objeto de importância para os amazônidas acreanos. Tudo o que fiz (muitas vezes pensei ser mera coincidência) teve uma mão providencial e oculta, como que a guiar minhas ações, mas jamais me foi permitido retorno financeiro, que penso seria causa de minha ruína como missionário. Mas quanto à contribuição para nossa história, isso pertence ao futuro e só ele é quem poderá dizer. 

Ser acreano

Apesar de, não raro, me acusarem de xenofobia, acho que nem todos os acreanos nasceram ou nascem no Acre, pois tal como Canudos, o Acre é uma terra buscada pelos acreanos que, muitas vezes, não se sabiam acreanos. Enfim, penso que por ser um processo formativo, quando você assume a acreanidade de que é portador - esteja onde estiver -  você será um acreano.

Sonho

Uma terra bem diferente da dos abundantes discursos dos nossos políticos, bem diferente das descrições dos mestres e doutores em suas teses, enfim uma terra que sendo capaz de desfazer-se das ideias colonizadoras, seja também capaz de administrar esse grande encontro de tão diferentes culturas que lentamente buscam se adequar a sua terra e a seu tempo, ora criando, ora renunciando e ora transformando os legados de que são portadores.  

AQUIRY
Dalmir Ferreira

Eis o Aquiry
terra de difícil parto,
pretendida
para a venda
pela Bolívia,
pra rapina
por peruanos,
por cobiça
do Amazonas e Pará,
espoliada por ingleses
não é Bolívia,
nem yanque,
nem Brasil é
pois não representa
divisa econômica,
Que terra é essa
ainda não descoberta?...

Dalmir Ferreira:
um filho da mata que nasceu com dons que o faz jogar em várias posições no time da arte acreana

Resumo biográfico

Dalmir Rodrigues Ferreira nasceu em 12 de fevereiro de 1952, filho do guarda-livros Djalma Ferreira e de Benedita Rodrigues Ferreira, no Seringal Bom Destino, em Porto Acre/AC, berço do movimento armado que deu origem ao estado do Acre. Revelou-se apaixonado estudioso da Amazônia com viagens e longa vivência em alguns de seus estados, formando uma biblioteca que além de livros e documentos, conta com obras, artes e antiguidades que em seu atelier-museu, testemunham sua dedicação pela arte e a cultura de sua região. É graduado em engenharia e história, acumulando também outros cursos em diversas áreas, como artes plásticas pela Escola Panamericana de Artes em 1960 e música pela Escola Open University em 1983 entre outros. É reconhecido artista plástico (xilogravador), poeta, memorialista e ativista cultural, com obras e exposições no Brasil e no exterior.