Grandes frigoríficos anunciaram que não comprarão carne de sete fazendas acreanas que, segundo eles, têm irregularidades, como por exemplo, desrespeito às leis ambientais. Em todo o Brasil, o boicote atinge 221 fazendas localizadas dentro de terras indígenas, unidades de conservação ou próximas a áreas recém-desmatadas no bioma Amazônia.
A decisão partiu dos três maiores frigoríficos do Brasil - JBS/Bertin, Marfrig e Minerva.
Mas para o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Acre (Faeac), Assuero Doca Veronez, essa é uma manobra para baixar o preço da carne comprada pelos frigoríficos. “Isso é mais uma patifaria”, desabafou.
Na opinião dele não cabe às empresas esse tipo de fiscalização, mas sim aos órgãos ambientais como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama). O presidente da Faeac lembrou ainda que em Rio Branco, onde estão localizadas as sete fazendas, não há reserva indígena. Na justificativa dos frigoríficos consta que os fornecedores de carne do Estado estão localizados nesse tipo de área de proteção ambiental.
O índice de desmatamento no Acre é o mais baixo do país, o que reflete o baixo impacto da pecuária no meio ambiente, de acordo com Veronez. Para esse tipo de produção, é necessário autorização do Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac), o que, por si só, já é uma forma de manter o controle dos impactos causados pelas práticas agropecuárias.
Entenda a situação
Segundo informações repassadas pelas empresas, a ação é resultado do compromisso assinado, em outubro passado, pelos frigoríficos com o Greenpeace e o Ministério Público Federal do Pará e do Mato Grosso: cadastrar e mapear por satélite as fazendas de seus fornecedores diretos. Dessa forma, os frigoríficos estariam aptos a não comprar mais animais oriundos de áreas de proteção ou recém-desmatadas.
Ainda de acordo com informações prestadas pelos três frigoríficos à organização ambientalista, além das propriedades embargadas há ainda outras 1.787 propriedades estão em estado de “verificação”. Isso porque elas estão localizadas em um raio de até 10 quilômetros de áreas desmatadas ou protegidas por lei. As empresas declararam também ter o ponto georeferenciado de mais de 12.500 fazendas, número que, segundo elas, representa 100% da cadeia de fornecedores diretos da região.
“Desde a assinatura do acordo passamos a trabalhar mais fortemente em sustentabilidade. E fazemos isso porque a sociedade quer. Nós temos de nos adaptar à nova realidade”, diz Marco Bortolon, presidente da Divisão de Carnes Mercosul do JBS, que abate cerca de 30 mil cabeças de boi por dia.
Mapeamento
A empresa investiu no mapeamento de pelo menos um ponto georreferenciado de todas as 9.813 propriedades que fornecem gado bovino ao grupo na Amazônia. Segundo Bortolon, 31 fazendas tiveram o fornecimento interrompido - o que representa um volume inexpressivo de carne para o JBS. Elas estão localizadas em áreas protegidas nos Estados de Rondônia, Acre, Pará e Mato Grosso.
Em nota, a Marfrig Alimentos informou, na terça-feira (20), que suspendeu o fornecimento de gado de 170 fazendas pecuárias localizadas no bioma Amazônia a pelo menos 1 quilômetro de novos pontos de desmatamento. O grupo tem cinco unidades industriais na região - duas em Mato Grosso e três em Rondônia - e adquire cerca de 7% do gado criado no bioma.
Os ambientalistas alertam, no entanto, que para que o estancamento do desmatamento na Amazônia ocorra de forma eficaz e transparente, é indispensável a realização do Cadastro Ambiental Rural (CAR). Ele prevê o georreferenciamen-to total da propriedade rural e, assim, possibilita a identificação precisa de fornecedores.
JBS, Marfrig e Minerva responderam por 36% do abate na Amazônia em 2009, segundo o Greenpeace. “O restante vem de pequenos, médios e grandes frigoríficos que até agora não assumiram compromisso com o desmatamento zero e vendem seus produtos para o consumidor por meio de supermercados que não limparam suas prateleiras de passivos ambientais e sociais”, diz a ONG.
“Na segunda fase, vamos olhar também para os supermercados e os outros frigoríficos que não participaram do acordo”, diz Márcio Astrini, da campanha Amazônia do Greenpeace Brasil. Com isso, a organização ambientalista pretende forçar práticas sustentáveis na cadeia inteira, e não somente nos signatários do compromisso.
Certificação
Assuero disse também que a certificação da carne é um assunto que deve ser melhor debatido porque gera muitos gastos e é um processo difícil para a maioria dos pecuaristas.