A importância da pesquisa agropecuária para o desenvolvimento de um país


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*Patrícia Maria Drumond

 

O governo federal destinou mais de 180 bilhões de reais em crédito para o campo, por meio do Plano Safra ou Plano Agrícola e Pecuário 2015-2016, valor que supera em 20% o plano 2014-2015. Para os produtores familiares foram destinados 28,9 bilhões de reais, com taxas de juros de 0,5% a 5,5%. Entre as linhas de crédito disponíveis, destacam-se as de custeio da lavoura e a de comercialização da safra, criando oportunidades para que milhares de pequenos, médios e grandes estabelecimentos rurais possam produzir alimentos em maior quantidade, com melhor qualidade e com preço justo.

O Brasil é, sem dúvida, uma referência global na produção de alimentos. Essa posição de destaque deve-se às parcerias sólidas estabelecidas entre governos, movimentos sociais, ONGs e a iniciativa privada. Da parte do governo, a implementação de políticas públicas voltadas para o crédito rural e fortalecimento da pesquisa agropecuária e da assistência técnica e extensão rural (Ater) contribui para o aumento da produção no campo e abastecimento do mercado interno, além da incorporação de áreas degradadas aos sistemas produtivos, geração de excedentes para a exportação e agregação de valor a produtos da biodiversidade. Nesse contexto, as oportunidades criadas proporcionam mais do que alimentos à mesa dos brasileiros, possibilitando também diversificação da produção, desenvolvimento territorial, qualidade de vida, valorização da cultura local, fixação das famílias no campo, geração de emprego e renda e conservação dos recursos naturais. Enfim, crescimento econômico com sustentabilidade ambiental, social e institucional.

Investir em pesquisa agropecuária realmente vale a pena. Em 2014, o Produto Interno Bruto (PIB) agropecuário brasileiro fechou o ano com um avanço de 0,4%, o que representa em torno de 23% do PIB nacional e a geração de mais de um trilhão de reais para o País. As atividades agrícolas representaram 70% e a pecuária 30% do valor produzido no ano. Aproximadamente 90% do crescimento do produto agropecuário resultaram de ganhos de produtividade e 10% do aumento do uso de insumos. Mesmo com fortes impactos climáticos como excesso de chuvas em algumas regiões, secas ou geadas em outras, a produtividade tem aumentado continuamente, garantindo o crescimento de longo prazo do setor.

Em conjunto com parceiros do Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa ajudou a elevar o Brasil da condição de importador de alimentos básicos para o posto de um dos maiores produtores e exportadores mundiais de alimentos. Em 42 anos de existência, suas pesquisas também contribuíram para o fortalecimento da agricultura familiar, atividade que já ocupa 24% da área cultivada no País, emprega quase 75% da mão de obra do setor agropecuário, além de produzir 87% da mandioca, 70% do feijão, 46% do milho, 34% do arroz, 58% do leite, 50% das aves e 59% dos suínos consumidos no Brasil.

Cada real aplicado na Embrapa em 2014 gerou retorno de R$ 8,53 para a sociedade brasileira e o montante de recursos investidos contribuiu para gerar mais de 65 mil novos empregos, segundo o seu Balanço Social (http://bs.sede.embrapa.br/2014/BalancoSocialEmbrapa2014.pdf). Esse documento ressalta ainda o papel da Empresa na formulação de políticas públicas. No Acre, por exemplo, a Embrapa é pioneira em estudos sobre a identificação de pontos críticos de contaminação química e biológica da castanha-do-brasil, assim como na definição de boas práticas de produção para essa cadeia produtiva, trabalho que gerou subsídios para a elaboração da base normativa brasileira e internacional sobre o controle higiênico-sanitário da castanha-do-brasil e seus subprodutos. Em parceria com a Embrapa Florestas, desenvolveu o Modelo Digital de Exploração Florestal (Modeflora), adotado hoje por empreendedores florestais e órgãos de controle ambiental em diversos estados do Brasil. Colaborou ainda com a criação da lei que instituiu o Sistema Estadual de Incentivos a Serviços Ambientais (Sisa), o qual estabelece um conjunto de diretrizes e instrumentos que possibilita o pagamento dos serviços ambientais, valorizando economicamente aqueles que trabalham em benefício do meio ambiente. Também foi de grande importância a contribuição da empresa na elaboração do Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE) do estado, coordenando alguns estudos temáticos e participando da construção da metodologia empregada.

Além de gerar novos conhecimentos e tecnologias, a pesquisa agropecuária promove mudanças significativas na paisagem e no uso do solo nas áreas rurais. Estudos realizados pela Embrapa Acre e parceiros vêm transformando a pecuária local, com recomendação de uso do amendoim forrageiro nas áreas de pasto, tecnologia já adotada em 138 mil hectares e, em 2014, gerou ganhos econômicos adicionais de 109 milhões de reais para os produtores. A implantação de sistemas agrossilvipastoris, incluindo o plantio de milho consorciado com espécies arbóreas para reforma de pastagens infestadas por capim-navalha, é outro procedimento adotado por produtores do Acre. Há ainda as práticas conservacionistas para recuperação e manutenção da fertilidade dos solos, avaliadas na regional do Juruá, incluindo o plantio direto, o cultivo de gramíneas e leguminosas, a rotação e consórcio de plantios (arroz, feijão, milho, mandioca, entre outros), bem como o emprego de máquinas e equipamentos adequados à agricultura familiar.

Informações detalhadas sobre essas e outras tecnologias desenvolvidas pela Embrapa podem ser acessadas no endereço https://www.embrapa.br. São quase 100 mil publicações, além de centenas de vídeos disponíveis para download gratuito. É justamente esse jeito de fazer, com transparência, foco e sinergia com os parceiros, que faz da Embrapa uma referência internacional na pesquisa agropecuária tropical, ampliando as oportunidades de investimento no espaço rural.

*Bióloga, doutora em Ciências

Pesquisadora da Embrapa Acre

patricia.drumond@embrapa.br