Amigos dão o último adeus ao militante Lhé

Mesmo doente, Lhé participou da festa de formatura de uma das netas

Cezar Negreiros

Os militantes dos partidos de esquerda e de direita, sindicalistas, ativistas dos movimentos sociais, trabalhadores rurais e domésticas,  quebraram a quarentena para dar o último adeus ao ativista dos direitos humanos,  Abrahim Farhat (Lhé). O corpo militante social foi velado no dia de ontem na capela da funerária São Francisco (no bairro do Bosque),  sob forte comoção social. Morreu neste sábado (16), o fundador do Partido dos Trabalhadores no Acre, Abrahim Farhat, o Lhé.  “O meu pai morreu na manhã desse sábado por conta das complicações renais”, lamentou a filha Adib Farhat, através das redes sociais.

O sindicalista Edimar Batistella,   presidente da Central Única dos Trabalhadores do Acre (CUT/Acre), disse que a  morte do Lhé será uma perda irreparável para todos os movimentos sociais. Contou que a última lembrança que guarda do ativista da Causa Palestina, foi no fim do ano passado quando participaram de um café da manhã na sede do Partido dos Trabalhadores no Acre (PT-AC) para escolha da nova direção. Como Lhé estava bastante adoentado, passou em sua residência no centro para lhe dar uma carona. “A nossa Central sempre foi à casa do Lhé, mas por conta do problema de saúde não aparecia mais com frequência”, recordou.

Para o presidente regional do PT-AC Cezário Braga Campelo, os dirigentes da legenda receberam a notícia da morte do Lhé com muita tristeza. Destacou que o grande legado deixado pelo militante da velha guarda, que vale a pena defender a paz entre os povos, justiça social para humanidade e que o lado certo sempre é ao lado dos mais pobres. “Lhe era um grande companheiro de todos, não importava a ideologia das pessoas que lhe procuravam para falar da política acreana”, lembrou o dirigente petista

Uma das últimas homenagens que Lhé recebeu da prefeitura

Trajetória – O ativista de esquerda com quase 80 anos de idade,  era muito respeitado e admirado pelas autoridades religiosas e políticas. O filho de um comerciante sírio/libanês nasceu no município de Rio Branco, mas na década de sessenta (século passado) no Colégio Acreano passou a militar no movimento estudantil para assumir o Grêmio Estudantil do CA. Durante a época que passou no Colégio José Rodrigues Leite (Ética) participou do movimento da Casa do Estante.

A Abrahim Farhat que cuidava da loja do pai na margem direita do rio Acre no segundo Distrito, mas  começou a sua militância política na década de setenta (século passado) nas Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s).  A convivência com o bispo da Prelazia do Acre/Purus Dom Moacyr Grechy,  contribuiu para que participasse da luta pela posse da terra encabeçada pelos seringueiros e castanheiros, ligados ao movimento dos Sindicatos Rurais, comandados pelo João Maia.  Desta participação como ativista pelo reconhecimento do direito da posse dos seringueiros e indígenas, Lhé contribuiu para o surgiu do movimento ambiental encabeçado, pelos líderes rurais Wilson Pinheiro e Chico Mendes.

Influenciado  pela teologia da libertação dos irmãos Leonardo e Clodovis Boff,   o ativista ajudou na organização da fundação de cooperativas e Sindicatos das Lavadeiras, Empregadas Domésticas e Prostitutas. Chegou a usar os recursos da família para fortalecer o movimento sindical dos Trabalhadores Rurais de Xapuri (STR) no fim da década de oitenta.

Legado –  Lhé contribuiu para organizar os trabalhadores com a explosão dos conflitos agrários que se arrastavam desde a época do governo de Francisco Wanderley Dantas (Dantinha). Com o apoio do religioso Dom Moacyr  ajudou a  transformar a Teologia da Libertação numa “práxis” nos rincões da Amazônia. A militância progressista da Prelazia do Acre/Purus, foi o terreno fértil para que o movimento rural  colhesse os seus frutos no Acre.

O  embate entre os seringueiros e fazendeiros, pela luta da posse da terra, abriu o caminho para a fundação de um partido de massas no estado.  O Partido dos Trabalhadores (PT) capitalizou essas aspirações por mudanças na região da Amazônia Ocidental.  A morte anunciada do sindicalista Chico Mendes, foi o impulso que os partidos progressistas precisavam para contrapor ao projeto hegemônico da direita acreana.  O assassinato de Chico com um tiro de espingarda calibre 20, no quintal da sua residência, no município de Xapuri, abalou o governo de Flaviano Melo.  O ativista passou a maior parte do tempo velando o  corpo do sindicalista e amigo que foi velado na Catedral Nossa Senhora de Nazaré. Abalado com a tragédia, o pastor da Igreja Católica resumia que “Chico tombou desta maneira por causa de sua vida, do seu discurso em defesa da floresta e dos menos favorecidos, ensinamento que o ativista de direitos humanos sempre fazia questão de contar para os amigos que lhe visitavam em sua residência no centro da cidade.

Depoimentos

Conceição Cabral do PT: “Meu amigo Abrahim Farhat, ( o querido Lhe) fez sua passagem. O Acre fica mais triste e menos solidário sem você. Lhe cumpriu com maestria sua missão na terra. O céu ganhou mais uma estrela de primeira grandeza. Vá em paz amigo, os seus ensinamentos ficará para sempre entre nós”…

Sérgio de Carvalho, presidente da Fundação cultural: Meu querido, amigo, que me contou tanto sobre Galvez. Me ligava sempre, com a ideia de um filme novo. Ora sobre as mulheres do Empate. Ora sobre a passagem de Che Guevara pelo Acre. Sempre com uma ideia. Algo para fazer. Uma revolução por começar. Lhé, das grandes almas”.