Artigo: Abre ou fecha?

Roberto Fonseca

”A diminuição de restrição às atividades comerciais está diretamente ligada à capacidade de atendimento do sistema de saúde”

Três meses após a confirmação oficial do primeiro caso de covid-19 no Brasil, vivemos uma situação curiosa e conflitante. Enquanto a curva de contaminação segue ascendente e as mortes diárias registradas nos boletins epidemiológicos passam de mil, temos visto uma onda de reabertura e de flexibilização de atividades em diversos pontos do país. Tal situação deixa uma dúvida no ar: corre-se o risco de ter que se fechar tudo novamente mais adiante caso a pandemia de coronavírus se agrave?

A resposta não é tão fácil. E muitos governantes não a têm. De uma forma geral, a diminuição de restrição às atividades comerciais está diretamente ligada à capacidade de atendimento do sistema de saúde. Se a taxa de ocupação das UTIs está dentro de uma faixa considerada segura, algo em torno de 40% a 60%, os governos municipais e estaduais passam a permitir a abertura gradual. E aí pode estar o equívoco, alertam epidemiologistas: ter vaga no sistema de saúde não garante o fim do risco de colapso e, sim, apenas o isolamento social pode manter a situação sob controle.

Mas pesa, no entanto, na avaliação das autoridades, como a população tem reagido. E há a visão de que o apoio irrestrito ao isolamento social é cada vez menor. Recente pesquisa do Datafolha, divulgada na quarta-feira, dá uma pista. Aponta que a maioria se mostra a favor de medidas mais restritivas. Segundo o levantamento, 60% dos entrevistados apoiam o lockdown, com proibição de circulação de pessoas e punição a quem desrespeita as medidas, com exceção de idas a supermercados, farmácias e hospitais; 36% são contra a medida; 1%, indiferente; e 3% não sabem.

Mas, ao mesmo tempo, diminui cada vez mais a quantidade de pessoas que defendem o isolamento social. Na mesma pesquisa, o instituto perguntou: sem considerar os integrantes do grupo de risco, isto é, idosos e doentes crônicos, as outras pessoas que não estão no grupo de risco deveriam sair para trabalhar ou continuar em isolamento? No começo de abril, 60% dos entrevistados disseram que as pessoas deveriam continuar em quarentena. No meio de abril, esse índice baixou para 56%. Depois, 52%. E, agora, caiu ainda mais: 46%. Dessa forma, avalia-se que o apoio da população está diretamente ligado à sensação de segurança. Quanto mais as unidades hospitalares se mostrarem suficientes para tratar os pacientes, mais apoio os governantes terão à retomada das atividades. Mas as mortes não vão pesar? Eis a questão.