Atendimento especializado no Juruá fazendo a diferença

Falar em economia de gastos parece não representar a dimensão do que realmente significa o projeto criado pelo Complexo Regulador do Juruá, vinculado à Secretaria Estadual de Saúde (Sesacre), responsável em gerir as ações do programa, que leva todos os meses médicos especialistas em diversas áreas para atender moradores do Vale do Juruá e adjacências.

A iniciativa não só deu certo como tornou Cruzeiro do Sul um polo de referência para atendimentos e procedimentos especializados antes só possíveis na capital, por meio do Tratamento Fora de Domicilio (TFD), evitando, assim, o deslocamento de pacientes de suas residências.

“Desde o início do ano passado, existe a intenção do governo de fortalecer a regional do Juruá em relação à saúde. Com isso, foi implantado o Complexo Regulador. Assim que assumimos, sugerimos que enviassem os especialistas em vez de mandar os pacientes de Cruzeiro até Rio Branco, com a justificativa da comodidade, do valor do transporte e ajudas de custo. Com isso, já economizamos mais de R$ 2,4 milhões”, destaca o coordenador do Complexo Regulador de Cruzeiro do Sul, médico Victor Hugo Panont.

Mais do que reduzir custos, o objetivo inicial, ainda de acordo com Panont, era diminuir a lista de centenas de pessoas que aguardavam procedimentos e, assim, zerar a demanda reprimida de algumas especialidades, como reumatologia, neurocirurgia, endocrinologia, neuropediatria, mastologia, entre outros, o que em poucos meses foi concretizado.

“Antigamente, pacientes aguardavam até seis meses uma consulta. No caso da neurocirurgia e da ortopedia, até três anos na fila de espera. Nos últimos seis meses atendemos, aproximadamente, 1,5 mil pessoas. Com esse fortalecimento da regional, os pacientes estão sendo atendidos aqui mesmo, com um menor custo para o Estado e maior comodidade aos usuários. E as vagas que nós usávamos em Rio Branco, a exemplo do Hospital das Clínicas, hoje estão disponíveis para o restante do Acre”, comemora o coordenador.

Resultado disso, além de uma economia de mais de R$ 2,4 milhões com TFD no período de novembro de 2017 a junho deste ano, foi proporcionar aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) do Vale do Juruá mais agilidade no acesso aos recursos da saúde que, paralelo a isso, agregou maior comodidade em receber acompanhamento especializado sem ter que sair de seu domicílio.

Quem é mãe, especialmente de menores de cinco anos, sabe que encarar uma viagem não é tarefa fácil com os pequenos. Agora imagina ter que fazer isso de madrugada, com uma criança que tem dificuldades motoras, embarcando em um voo às 2 horas da manhã rumo à capital para conseguir atendimento médico especializado. Essa era a rotina da fonoaudióloga Lidiani Troiani Teixeira, que reside em Cruzeiro do Sul e precisa utilizar o TFD para que o filho, hoje com 4 anos, fosse acompanhado regularmente pela neuropediatra.

Ela conta que a criança foi diagnosticada com uma alteração genética, e hoje o acompanhamento é feito em Cruzeiro do Sul com a especialista na área da pediatria neurológica Cholem Werklaenhg, que compõe a equipe que realiza atendimento mensal no Juruá.

“Foi bom para meu filho, mas sem dúvidas foi um ganho para todas as crianças que precisavam desse atendimento, e que hoje é feito aqui, sem que saiam de suas rotinas. É um ganho para os moradores de Cruzeiro de Sul, que por meio desse projeto trouxe especialistas não apenas de excelência, mas com muito amor pelo profissão. A consulta parece até particular. A médica não tem pressa durante a consulta, é sensível ao ouvir nossas dúvidas. Só tenho a agradecer pela iniciativa”, diz Lidiani.

Especializada em uma área onde poucos profissionais atuam no Acre, o que aumenta a espera na fila pelo atendimento, a neuropediatra Cholem Werklaenhg, que acompanha o pequeno Bruno Troiani, filho de Lidiani, revela que iniciou com atendimento trimestral no município, mas para reduzir a demanda reprimida, crianças que aguardavam há anos pela primeira consulta, hoje acompanha mensalmente as equipes no Juruá.

“Muitas crianças que aguardavam pela primeira consulta, já foram avaliadas, fizeram exames necessários e hoje são acompanhadas regularmente. Acredito que estamos avançando muito, tendo uma boa resposta depois de iniciarmos esse trabalho em Cruzeiro do Sul. Atendo crianças que vem de longe, horas de barco, população indígena que sabendo da disponibilidade do atendimento busca o serviço, isso nos gratifica muito, pois o bom profissional está além das quatro paredes”, destaca a profissional.

Diagnosticada com fibromialgia há quatros anos, Roberlene Pereira, 39 anos de idade, há um ano não precisa mais do Tratamento Fora de Domicílio para ser vista por um reumatologista, que antes só era possível no Hospital das Clínicas, em Rio Branco. Por ter adquirindo síndrome do pânico após sofrer de depressão, consequência da doença, ela destaca a importância do projeto da Sesacre, que hoje leva atendimento especializado ao Hospital do Juruá.

“Não teria mais condições de me deslocar até Rio Branco com os medos que hoje enfrento, além da dor intensa que sinto em meio corpo. A consulta sendo feita hoje aqui trouxe uma nova esperança para mim, assim como acredito que para muitos outros pacientes. O lado emocional conta muito, tanto que isso ajudou bastante no meu tratamento. Talvez pelo estresse da viagem, até o atendimento era diferente. Aqui parece ser melhor, mais tranquilo e sem pressa”, relata a paciente.

Quando se ouve relatos emocionados de pacientes, de profissionais que abriram mão de seus consultórios, do conforto de suas casas e finais de semana ao lado de suas famílias para abraçar um projeto voltado para a saúde pública, é possível compreender que atitudes como essa não trazem apenas economias de gastos, mas, sobretudo, empatia, humanização, solidariedade e respeito ao próximo.

Que a vida é o bem mais preciso que temos, disso não há dúvidas. E proporcionar bem-estar, cuidados e atenção especial para alguém cujo a vida se tornou um pouco mais frágil, isso sim, não tem preço.