Brasileiros e Peruanos trocaram tiros em Thaumaturgo

Por Arquilau de Castro Melo

Transcorria o mês de novembro do ano de 1904, o rio Juruá já ganhara água suficiente para permitir a navegação dos primeiros navios das casas aviadoras de Belém e Manaus que se apressavam em trazer passageiros e mercadorias para abastecer os barracões dos seringalistas. Depois de desembarque dos utensílios necessários ao fabrico da borracha como baldes, tigelas, porongas e lamparinas, facas, terçados, machados, espingardas, chumbo, pólvora e, de alimentos como carne enlatadas, biscoitos, açúcar, sal, e cachaça inicia-se o embarque das pelas de borracha e sernambi.

O navio o “Juruá”, da casa aviadora paraense Antonio Cruz & Companhia, estava ancorado no porto do seringal invencível, sede provisória da cidade Cruzeiro do Sul, situado na confluência dos rios Juruá e Moa. Há dois meses deixara o porto de Belém e agora estava de baixada a fim de ter tempo de fazer uma nova viagem antes da chegada do verão.

Marechal Gregório Thaumaturgo de Azevedo
Marechal Gregório Thaumaturgo de Azevedo

Cruzeiro do Sul havia sido fundada há pouco mais de dois meses e nem todas as repartições públicas tinham tido tempo suficiente para efetivar a mudança para o seringal centro brasileiro, local escolhido pelo prefeito Gregório Thaumaturgo para abrigar a sede definitiva da prefeitura do Departamento do Alto Juruá.

Enquanto se ocupava em planejar a nova cidade, com a segurança de quem já fora governador dos estados do Piauí e Amazonas, o marechal Thaumaturgo recebeu uma má notícia: o Peru acabara de instalar um posto aduaneiro na confluência dos rios Amônea e Juruá, para cobrar impostos da borracha que por ali passava e tivera, ainda, a ousadia de denominar o local de Nuevo Iquitos.

A notícia apanhou o general de surpresa uma vez que até então os peruanos estavam se mantendo acima da foz do rio breu. Com a experiência de quem trabalhara junto à comissão encarregada de demarca a fronteira do Brasil com a Venezuela, o marechal logo deduziu logo a estratégia do vizinho: como os dois países estavam preparando uma comissão mista para percorrer o Juruá a fim de demarcar os seus limites fronteiriços com base no direito de posse o Peru avançava Brasil adentro a fim de consolidar novas posições.

O marechal então com 51 anos de idade, homem trabalhador, de têmpera irascível, habituado a confrontos ficou profundamente irritado com a atitude dos peruanos. Havia de tomar medidas imediatas – pensou – para preservar o território do Departamento do Alto Juruá, cuja gestão lhe fora confiada pelo próprio presidente da República. Não havia tempo o suficiente para comunicar-se com a Capital Federal, o Rio de Janeiro, e aguardar providências. Era necessário agir logo, pensou. Mas como expulsar os invasores se a guarnição da tropa federal a sua disposição era composta de poucos homens e mesmo assim não havia como transportá-la até o Amônea, ou Nueva Iquitos como queriam os peruanos.

Enquanto pensava como enfrentar aquela situação nova tomou conhecimento de que no porto do seringal invencível estavam ancorados dois navios o “O Moa”, de propriedade da firma “Mello¨ & Cia, e o “O Juruá” de propriedade de uma casa aviadora de Belém que seriam suficientes  para levar a tropa para enfrentar os peruanos. Cuidou, então, de encaminhar ofícios aos comandantes da embarcações requisitando os navios com a advertência de que a só poderiam deixar o porto com seus soldados. O que ele não esperava era a reação do comandante do navio “O Juruá”, Alberto Serra Freire, que foi procurá-lo para dizer que não poria o gaiola a disposição da prefeitura uma vez já estava de baixada para Belém e que não tinha combustível nem rancho suficientes para atender a requisição. Mas o general não lhe deu alternativa: o navio havia de fazer a viagem ainda que tivesse de empregar a força para conduzi-lo.

Confluência dos rios Juruá (maior) e Amônia, onde hoje está a cidade de Mal. Thaumaturgo. Imagem satélite
Confluência dos rios Juruá (maior) e Amônia, onde hoje está a cidade de Mal. Thaumaturgo. Imagem satélite

 No dia seguinte os dois navios subiam o Juruá e seis dias depois chegaram à foz do Amônea. A batalha do Amônea, como ficou conhecido o episódio, durou três dias, findos os quais os peruanos se renderam com a baixa de 9 mortes, enquanto do lado dos brasileiros foi registrada uma morte e vários feridos.

 Através do relato do farmacêutico Mário de Oliveira Lobão que embarcara em um dois navios para atender eventuais feridos é possível ter uma visão bem precisa do confronto:

“Tinham os peruanos no local 80 homens bem armados e municiados, dispondo de metralhadoras sob as ordens do General Suarez. Os dois “gaiolas” não puderam combinar um ataque à posição inimiga, devido a ter o “Môa” encalhado e a dificuldades outras de navegação, em virtude da baixa das águas. Mas o destacamento brasileiro em batelões e canoas penetrou os igarapés, desembarcou e tomou posição para atacá-la por três lados: no seringal fronteiro, Minas Gerais, na margem direita do Juruá e por trás de Nuevo Iquitos. Muitos seringueiros armados reforçaram as 50 praças de infantaria. O Capitão Ávila ficou no seringal, o tenente Mateus na barranca do Juruá e o ex-cadete da Escola Militar de Fortaleza, Oséas Cardoso na terceira face do ataque. Intimados a capitular os peruanos recusaram e começou o fogo de parte a parte, que durou até às 5 horas da manhã do dia 5 de novembro. Então cercado e maltratado pela fuzilaria certeira dos seringueiros, Sr. Ramirez rendeu-se com as honras da guerra recolhendo-se ao Departamento de Loreto. Os peruanos perderam 9 homens e tiveram muitos feridos. Os brasileiros perderam somente um homem e tiveram poucos feridos”.

Cinco anos depois, em setembro de 1909, Brasil e Peru assinaram o Tratado do Rio de Janeiro fixando os atuais limites fronteiriços, entre os dois países. Na foz do Amônea, localizada à margem esquerda do Rio Juruá, foi fundada a cidade de Marechal Thaumaturgo, em homenagem ao fundador de Cruzeiro do Sul.

* Arquilau de Castro Melo é advogado.

Bibliografia: Onofre, Manuel O papel decisivo do Mal. Taumaturgo de Azevedo na questão do Acre; Processo: Autos da ação ordinária para indenização autores Antonio Cruz & Companhia ré Fazenda Nacional, 1905 (acervo Tribunal de Justiça).