“Cadê o corpo da Eliza?”

*Marina Vieira de Carvalho

Potência. O que significa lutar pela vida em um país marcado pela naturalização da violência? Quais as consequências de lutar pela vida em uma sociedade atravessada por relações de poder racistas e patriarcais que definem e delimitam os corpos/existenciais que podem ter acesso a uma vida cidadã e aqueles/as condenados/as a diversas formas de mortificação devido à inferiorização não só de seu status de cidadania, como também de sua própria condição humana?

O caso Eliza Samudio nos apresenta uma rica oportunidade de análise da nossa grave crise humanitária. A contratação do goleiro Bruno pelo Rio Branco Footblall Club provocou a mobilização do movimento de mulheres do Acre, articuladas pelo Instituto de Mulhes da Amazônia (IMA). A campanha que exige da diretoria do clube a revisão da contratação e pedido de desculpas à sociedade acreana, recebeu mais de 3 mil adesões em menos de uma semana, o que mostra a pronta adesão ao movimento. No entanto, a campanha revela também certo incômodo daqueles/as que interpretam o movimento como ações de “esquerdistas”, “feministas”, “gordas”, que não saberiam fazer a “verdadeira” política, só saberiam fazer “mimimmi”.

“K.L, de 23 anos, foi morta a facadas pelo companheiro na noite de 25 de março, no bairro Caladinho, em Rio Branco. A Polícia Militar do Acre afirma que, no momento em que ela foi atacada, ela estava com o filho no colo”. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o Acre teve aumento de 300% nos casos de feminicídio durante pandemia. É justamente sobre esta estrutura patriarcal e racista, que mata violentamente mães com seus filhos no colo dentro de suas casas, que se trata a campanha protagonizada pelas mulheres do IMA. Mimimi?

A historicidade do medo da figura feminina é de longa tradição. No caso do movimento feminista, a explosão do que ficou conhecido como sua “1ª onda” mobilizou as angústias de quem se sentiu ameaçado pelas mulheres que não se submetiam às normas sexuais e de gênero das sociedades patriarcais. Essas mulheres foram desqualificadas por grande parte da imprensa, das ciências, das literaturas e artes – saberes-poderes de domínios masculinos – como “mulheres-homens”, “frígidas”, “feias que não conseguem segurar um macho”, enfim, uma série de ofensas que revelam tentativas de inferiorização, desqualificação e silenciamento dessas mulheres; estereótipos que têm por objetivo eliminar suas potências de libertação.

Essa tecnologia de poder não impediu que os feminismos fosse um dos movimentos sociais mais exitosos do século XX, afinal, conseguiu retirar o patriarcado da maioria das legislações dos países Ocidentais. No caso brasileiro, essa conquista histórica é materializada na Constituição de 1988. Não sabem fazer política? O que não significa que os feminismos são um movimento homogêneo e linear, como denunciam as críticas das pensadoras feministas do Sul Global e do feminismo negro, que se empenham em denunciar a armadilha da universalização do conceito de mulher e a necessidade de se   analisar a combinação entre patriarcado e racismo empreendidas pela modernidade Ocidental.

Voltando a pergunta inicial: o que significa lutar pela vida em um país marcado pela naturalização da violência? Significa não se calar diante da possibilidade de uma pessoa que cometeu feminicídio ocupe uma posição em que se torna ídolo para as crianças, sem ter feito a fundamental reparação de sua violência patriarcal. Isso em um Estado campeão de feminicídios. Lutar pela vida é o que essas mulheres corajosamente enfrentam diante do silenciamento, ocultação e mesmo glorificação de um patriarcalismo racista tão naturalizado que se nega a refletir sobre os efeitos de tal contratação para as famílias acreanas.

​Os significados da frase de protesto: “cadê o corpo de Eliza?”  em frente à sede do clube Rio Branco, bradada pelos manifestantes na manhã de 31 de julho, não se trata apenas de um caso de polícia – como nos mostra a falta de conscientização do goleiro Bruno -, é também um caso de educação. Memória, conscientização e responsabilização são as potências acionadas pelo movimento de mulheres na luta pela problematização de seu passado/presente de morte rumo à construção de um presente/futuro de vida.

*Marina Vieira de Carvalho é Doutora em História, educadora popular, integrante do IMA e professora da Universidade Federal do Acre