COVID e seus dilemas morais. Nem tudo é tão simples como parece

Edson Rigaud Viana Neto

Os últimos dias estão se notabilizando pela grande discussão acerca das medidas que tentam conter o ritmo de contágio do COVID. Para manter a tradição recente dos debates públicos da nossa sociedade, sobretudo nas redes sociais, a divergência de entendimentos quanto às medidas adotadas logo descambou para demagogia, intolerância, agressões, ofensas e troca de acusações.

O drama causado pelo vírus deve(ria) deixar muitas lições. Alguns debates, entretanto, chamam atenção seja pela complexidade das ideias envolvidas, seja pela falta de percepção das pessoas que estão debatendo quanto a esta complexidade mesma. Estamos repetindo e vociferando verdades absolutas sem uma maior reflexão, sem considerar e ouvir o outro, como se tudo fosse muito simples, coisa que estamos nos acostumando a fazer a qualquer tempo e sobre qualquer tema.

Nem tudo é tão simples como parece.

Mesmo com as festas clandestinas, a insensibilidade de alguns e ignorância de outros, o Acre tem alcançado bons índices de isolamento social, quando comparado com os demais Estados do país. Os índices na verdade são ruins, mas comparados com os demais Estados podem ser qualificados como “menos piores”. Noutra quadra, infelizmente, mais de 300 pessoas já sucumbiram à doença. Conjugando tais circunstâncias, vejo muita gente defendendo que o isolamento então deve ser interrompido, pois provou sua ineficiência.

Este discurso me faz lembrar Nassim Taleb, quando fala da “sensação de inutilidade do herói silencioso”. O filósofo ilustra seu pensamento com um experimento mental didático. Convida-nos a imaginar um legislador que, antes do atentado ocorrido em Nova York no fatídico 11 de setembro, propõe que todas as cabines de avião sejam à prova de balas e permaneçam constantemente trancadas. Este indivíduo teria evitado que os aviões usados no atentado fossem tomados pelos terroristas, teria evitado uma tragédia que matou milhares de pessoas inocentes, teria evitado guerras que se sucederam ao evento (pelo menos evitaria uma justificativa fácil para aqueles que sempre querem promovê-las), teria evitado verdadeiros desastres da nossa história recente.

Este indivíduo teria salvado mais vidas que qualquer Nobel da paz, mas nunca será devidamente reconhecido nem por ele próprio. Ao contrário, diante dos custos que a medida ensejaria para as companhias aéreas, sem motivo aparente, certamente lhe outorgariam a pecha de inimigo das empresas, dos investimentos, dos funcionários, da geração de empregos, do desenvolvimento, etc. Provavelmente seria considerado como só mais um desses burocratas que criam medidas caras, desnecessárias e sem nenhum resultado prático. Ninguém nunca faria um monumento a este herói, que talvez não conseguisse sequer um segundo mandato.

Do ponto de vista da ocorrência de mortes algo semelhante ocorre com o isolamento, que evita uma tragédia estupidamente maior e, exatamente por isso, por não permitir que este pior cenário seja vivenciado, a percepção de boa parte das pessoas nunca alcançará os verdadeiros méritos desta medida.

Nem tudo é tão simples como parece.

Abre o comércio ou não abre o comércio? Suspendem ou não suspendem as restrições? Quem defende a abertura tem como lógica subjacente um viés utilitarista, que propõe uma análise de custo e benefício. O avanço da doença gera sofrimento nas famílias que perdem seus entes e nas pessoas que adoecem. A crise econômica gera sofrimento para as famílias que ficam privadas de sua fonte de subsistência, estas últimas em número absolutamente maior em relação àquelas que enfrentam o luto. A lógica utilitarista se direciona a definir como correta a decisão que cause menos sofrimento no cômputo geral, ou seja, aquela que gera sofrimento para menos gente.

Nem tudo é tão simples como parece.

Admita que você está dirigindo um carro e um grupo de dez pessoas invade a pista. Não há tempo para frear de modo a impedir o atropelamento. Na calçada tem uma só pessoa. É moralmente aceitável desviar do grupo de dez pessoas e atingir aquela única que está na calçada? Seria moralmente justificável optar por virar o volante e causar sofrimento a uma só pessoa/família? Veja, apesar da profundidade e dificuldade da questão, o princípio utilitarista em si não é nenhum absurdo.

Em 2005 uma equipe militar liderada pelo Seal Marcus Luttrell fez uma incursão no Afeganistão. A história está contada no livro Lone Survivor (Único Sobrevivente), que depois virou filme: “O Grande Herói”. Logo que os militares se posicionam dão de cara com dois camponeses pastorando cabras, ambos desarmados. Não tinham cordas, não seria possível amarrá-los. As opções eram matar os camponeses e garantir o sigilo de sua posição ou deixá-los partir sem saber exatamente o que poderia acontecer depois. Um dos soldados votou pelo sacrifício. Luttrel decidiu deixá-los partir, pois não seria correto matar a sangue frio os dois camponeses desarmados.

Uma hora e meia depois estavam cercados por aproximadamente cem guerrilheiros Talibãs. Os três companheiros do Comandante foram mortos junto com mais outros 16 soldados que vieram ao seu resgate. A decisão de poupar 2 vidas ensejou a morte de 19 pessoas. Marcus Luttrell, que não seguiu a lógica utilitarista, decidiu certo ou errado?

Efeitos bem diferentes desta mesma lógica utilitarista se revelaram no caso Grimshaw vs Ford Motors Co., um caso judicial de lesão corporal julgado nos Estados Unidos. Na década de 70 a Ford tinha um carro que era sucesso de vendas, mas tinha risco de explodir em caso de colisão traseira. Uma das vítimas dessa falha de projeto processou a fábrica. No processo ficou demonstrado que a empresa sabia da falha, mas ao estimar a quantidade de explosões, mortes e queimaduras e quanto gastaria com indenizações (49,5 milhões de dólares) concluiu que não compensava instalar a peça de 11 dólares que resolveria o problema, pois no universo de 12,5 milhões de veículos seu gasto seria de 137,5 milhões. A Ford, que seguiu a lógica utilitarista, decidiu certo ou errado?

Nem tudo é tão simples como parece.

É viável fazer análise de custo e benefício com vidas humanas? Como se quantifica e compara o sofrimento? Como resume o filósofo Michael Sandel, a moral é uma questão de avaliar vidas quantitativamente e pesar custos e benefícios? Ou certos deveres morais e direitos humanos são tão fundamentais que estão acima de cálculos dessa natureza? No fim, é disso que estamos tratando.

Se nem tudo é tão simples como parece, uma coisa é certa: estamos todos em sofrimento.

Quem defende abertura do comércio não é nenhum monstro, não é nenhum arauto da morte, não se compraz com o falecimento de ninguém, não é disso que se trata. Por outro lado, quem defende o isolamento não é insensível às dificuldades econômicas que a medida acarreta. Julgue menos, não ofenda, escute, respeite, reflita, tenha compaixão e solidariedade por quem pensa diferente de você, pois estamos todos sofrendo como reféns do medo.

Medo da morte, medo da escassez (sua chegada ou o tempo de sua permanência), medo do desconhecido e da absoluta incerteza. A razão pode ser diferente, mas o sofrimento é comum.

Ao que tudo indica, em um dia como qualquer outro um Chinês como qualquer outro, de uma província do interior como qualquer outra, resolveu comer um morcego como qualquer outra iguaria. O que poderia ser mais irrelevante? O que isso podia nos interessar? Ao que tudo indica, foi daí que ele ficou doente e todos estão enfrentando essa crise. Uma única pessoa, uma única vida, um único ato insignificante afetou toda humanidade. Agora todos nós, em todos os lugares, estamos sofrendo juntos. Um único pode afetar a todos, todos podem sofrer como um só. Talvez o aprofundamento dessa cultura de ódio e sectarismo não seja a lição que essa provação estava destinada a nos trazer. Quem sabe? O que é que eu sei? Nada é tão simples como parece.

*Edson Rigaud Viana Neto é Secretário de Infraestrutura do Município de Rio Branco. Procurador Municipal. Advogado licenciado. Contato: edson.rigaud@riobranco.ac.gov.br.