Crônica de 100 mil mortes anunciadas

*Antonio Prata

Prometeu 30 mil cadáveres, nos entregou três vezes isso em meses

Cem mil mortos: ontem, hoje ou amanhã. Cem mil mortos e seguimos contando os corpos que não podemos velar. Mais de mil por dia. Dez vezes cem, da manhã à noite. Cem vezes mil, de março a agosto.

Era óbvio, mas segue sendo surpreendente que um presidente eleito hasteando a bandeira da morte nos entregue, vejam só, a morte. Prometeu 30 mil cadáveres para resolver o Brasil, nos entregou três vezes isso em meses: e seguimos contando os corpos. Cem mil de Covid, outras dezenas de milhares de bala, de acidente de carro, de burrice, de séculos de descalabros culminando nos desvarios de um ser humano decrépito apavorado com a sombra da própria masculinidade. Um eunuco existencial arrotando priapismo.

O erro da ditadura foi ter torturado e não matado, ele disse. Agora nos tortura e nos mata diuturnamente. Contra o delírio de um complô mundial de foice e martelo, oferece a foice, somente, ceifando. Nossa bandeira jamais será vermelha. Claro que não. Será preta. Já é preta. Não como Preta Gil ou “Preta, Pretinha” ou “um negro norte-americano forte”. Preta como a noite, a floresta carbonizada por Ricardo Salles, os dedos dos pés dos mortos por asfixia na “gripezinha”.

Atrás de mim, na televisão, Caetano Veloso canta cercado pelos filhos. “Tigresa”, “Um Índio”, “Pulsar”, “Odara”. Tudo é “divino, maravilhoso”, mas me soa a um réquiem para um país defunto, de projetos defuntos, de esperanças defuntas, com uma autoimagem defunta. Parece o “Canto do povo de um lugar” há muito extinto. “O sonho acabou, quem não dormiu em sleeping-bag nem sequer sonhou”. “A tristeza é senhora”.

Que país é esse em que vivemos no dia 9 de agosto de 2020? Que gente é essa que se cala diante da morte do João Gilberto, manifesta pesar por MC Reaça e desdém pelo falecimento desnecessário e criminoso de 100 mil? “Careta, quem é você?/ Que não sentiu o suingue de Henry Salvador/ Que não seguiu o Olodum balançando o Pelô/ E que não riu a risada de Andy Warhol/ Que não, que não”. Que não, que não, que não, que não. Imbecis. Assassinos. Burros. “Coragem é poder dizer sim”.

Assisto à live do Caetano como se fosse o “Sermão da Montanha”. Aguardo um norte. Uma revelação. Mas quando ele canta as incompetências da América católica (ou neopentecostal), onde “cada paisano e cada capataz”, que “com sua burrice fará jorrar sangue demais” e “sempre precisará de ridículos tiranos”, dói. E quando canta as maravilhas do que já aspiramos a ser, do que já pudemos e poderíamos ser —”os hermetismos pascoais, os tons, os mil tons, seus sons e seus dons geniais”— dói ainda mais.

Hermeto tocando chaleira. Garrincha driblando os Joões. Os jardins do Burle Marx. A utopia da miscigenação. Nelson Rodrigues. Pixinguinha. Drummond. Grupo Corpo. Machado de Assis. Luiz Gonzaga. Floresta. Água. Sol. Mar. Peixe. Fruta. A Semana de 22. A Tropicália. Tom e Vinícius. Elis. O recuo da bateria na Marquês de Sapucaí. Tudo isso parece ter sido eclipsado por um vespertino policialesco do SBT. Chacrinha perdeu pro Sílvio Santos. Pegou fogo no museu.

Cem mil mortos: ontem, hoje ou amanhã. Cem mil mortos e seguimos contando os corpos que não podemos velar. Mais de mil por dia. Dez vezes cem, da manhã à noite. Cem vezes mil, de março a agosto.

Caetano canta “Vejo uma trilha clara pro meu Brasil, apesar da dor”. Espero que esteja certo. Que possamos sonhar novamente com “Alto astral, altas transas, lindas canções/ Afoxés, astronaves, aves, cordões/ Avançando através dos grossos portões”. Um minuto de silêncio aos que se foram. Amor e coragem aos que ficam.

*Antonio Prata é escritor e roteirista, autor de “Nu, de Botas”.