Decisão do apoio do governador a Socorro Neri implode tabuleiro eleitoral na capital

O anunciado apoio do governador Gladson Cameli à prefeita Socorro Neri para a eleição municipal sacudiu o tabuleiro político da sucessão na capital e pode provocar profundas mudanças no quadro até aqui estabelecido para o pleito.

O apoio do governador significa grande respaldo político para a prefeita, que une a popularidade conquistada pela ação eficiente contra a COVID e pelas obras e realizações da prefeitura em Rio Branco, com o carisma do governador Gladson Cameli, unanimemente considerado como em alta na avaliação popular, constatação referendada pelas últimas pesquisas.

Socorro Neri ganha um palanque robusto, para além de seu PSB e da parte da esquerda e centro que rompeu com o PT e que continuou fiel a seu estilo sóbrio e ético de administrar. Gladson traz a sua candidatura o aval do centro político do estado, da estrutura do governo estadual, das possibilidades de parcerias e ações conjuntas, do respaldo às suas decisões políticas e administrativas. Também afasta de vez a sombra do petismo que ainda paira sobre a prefeita em alguns setores e públicos pouco informados ou com má vontade na cidade.

Ao mesmo tempo, o apoio despertou de imediato forte reação nas redes sociais, estimuladas por postagens claramente impulsionadas, por atividades de robôs e perfis fakes, que já estavam identificados e em discreta ação antes mesmo da posição do governador. A prefeita é alvo preferencial do ódio nas redes, acumulando ataques vindos das outras forças políticas, tanto á direita, como à esquerda.

O PT não perdoa o fato dela não ter aberto mão do direito líquido e certo à reeleição para apoiar um nome do parido. Rompeu com Socorro Neri publicamente e agora tenta construir o que tem chamado de a única candidatura da esquerda, com o pré-anúncio do deputado Daniel Zen como postulante. Ele tentará conseguir apoio do PC do B e outros partidos.

Explosão do PP

O grande drama do PP é tentar levar à frente uma candidatura do partido na capital, sem o aval do governador. Como se apresentar ao eleitorado como opção se até o comandante da legenda,  maior nome do partido no estado, o governador, desdenha da opção por Tião Bocalom? Como ficarão os filiados ao partido com mandatos e cargos e que têm interesse em eleições no interior, que contam com o apoio do governador, se entrarem em conflito com ele na capital? 

O exemplo mais claro é a senadora Mailsa Gomes, que ainda esta semana conseguiu o apoio de Gladson Cameli e fez claro alarde desse fato, Cameli para o nome de sua cunhada, Rosana Gomes, na disputa à prefeitura de Senador Guiomard. Como Cameli pode servir para apoiar sua candidata lá e ela não seguir a orientação dele na capital?

O mesmo dilema ronda outros nomes do partido, todos bem aquinhoados com cargos na administração estadual. Como não acompanhar o governador com tantos interesses na administração? Bocalom seria capaz de manter e inflar sua candidatura sem o apoio do Palácio Rio Branco? Confiaria em uma estratégia de abrir confronto com Gladson confiando na palavra e no engajamento do PSD do senador Petecão, que indicaria sua esposa como vice? A fragilidade de Bocalom ficou explícita. Ele pode ter sido, mais uma vez, vítima de seu próprio açodamento.

O enigma PSDB

Talvez a grade jogada em curso para as eleições, apressada depois da decisão do governador, esteja sendo dada pelo vice-governador Rocha, que tenta assumir o comando do PSL no Estado. Assim, o partido apoiaria a candidatura de Minoru Kinpara, levando junto preciosos minutos da propaganda de rádio e Tv e recursos do fundo eleitoral, em que o PSL possui a segunda maior fatia.

O problema é que isso cria uma situação muito curiosa: o PSL no Acre apoiando um ex-petista e ex-integrante da REDE Sustentabilidade, um candidato identificado a vida inteira com a esquerda, que chegou a ser presidente do diretório do PT.  E apoiando um partido integrante do que os liberais de direita consideram como representante da velha política, o partido de FHC, Dória e Aécio Neves. É uma posição estranha tano para o PSL com para Minoru que, ainda que tenha rejeitado seu passado petista e suas ligações com o partido, ainda é respeitado e cultuado por parte do eleitorado com posições progressistas, identificado com causas sociais, por seu passado como reitor da Ufac, muito distante da ideologia liberal e de centro-direita do PSL, partido que deu sustentação à eleição do presidente Bolsonaro. Fica uma mistura estranha, um mapinguari político a ser vendido ao eleitor. Sem contar com a rejeição que a manobra de Rocha está encontrando em setores do PSL acreano. Nessa composição, o partido pode indicar o pecuarista Fernando Zamora como vice de Minoru, selando a unção entre a cátedra e o boi. Mas não é essa a chapa dos sonhos de Rocha. Suas ambições vão além.

As investidas de Rocha não se esgotam no PSL. O vice govenador não esconde se desejo de atrair uma aliança com o MDB, que até agora se mantém firme com a candidatura do deputado Roberto Duarte, que o próprio diz ser inegociável. Tanto o PSDB, até a provável incorporação do PSL local, como o MDB, não conseguiram ainda coligações que fortaleçam suas candidaturas.

Adiamento

Com o adiamento das eleições praticamente assegurado para 15 de novembro e as convenções partidárias definidas para agosto, haverá tempo para acomodações e para novos lances na eleição acreana.

O que está claro é que o quadro de candidaturas e apoios de forma alguma está fechado ou é definitivo e que tudo deve se resolver de última hora. Muita água ainda vai passar debaixo das pontes do Rio Acre, haverá muto ranger de dentes, muitos conchavos, acordos e decepções até a definição final das candidaturas.