Governador é o dono da sucessão municipal no estado

O governador Gladson Cameli não fez apenas uma jogada no tabuleiro de xadrez da política estadual. Ele simplesmente derrubou todas as peças para começar uma nova partida, com praticamente todas as possibilidades zeradas para sucessão em Rio Branco e em algumas cidades do interior. Nos últimos dias, o governador foi presença decisiva e fonte de preocupação ou comemoração em todas as candidaturas relevantes na disputa na capital, que foram atingidas de algum modo por ações ou suposições envolvendo Gladson Cameli.

Ao anunciar, semanas atrás, seu apoio à reeleição da prefeita Socorro Neri, ele já havia criado um turbilhão, fora das ligações partidárias, mostrando o respeito pela trajetória política e de gestão da prefeita, em uma decisão que resultou em um alinhamento mais forte nas ações administrativas e de governo, entre a administração municipal e estadual, acima de partidos e conveniências.

Desde logo se notou que esse não era um arranjo improvisado ou efêmero, para o pleito deste ano, mas uma construção que pode ser decisiva, também, para as necessidades e conveniências do governador para a eleição de 2022.

Do ponto de vista da prefeita, o apoio do governador foi o passaporte que ela precisava para comprovar seu distanciamento político em relação ao PT, com quem teve embates duros, conseguindo impedir todas as tentativas de instrumentalizar sua gestão, de acordo com os desejos e esperanças frustradas dos líderes petistas. Foi a comprovação de uma postura de coerência, sem implicações ideológicas, que constatou um novo perfil de moderação e eficiência administrativa e gerencial que a prefeita vinha exercitando a algum tempo.

Esta foi a primeira batalha do governador, que atingiu os dois lados da política acreana. Sua aproximação com a prefeita impactou profundamente as forças ligadas à esquerda no Acre, que vinham demonizando e buscando isolar a administração municipal. Forçou as lideranças do PT, que até então mantinham um distanciamento quase olímpico da sucessão, a sair em defesa de sua própria candidatura, a do deputado Daniel Zen, buscando a polarização e forçando um debate com críticas que passaram a ser dirigidas tanto ao estado como à prefeitura. Mesmo com o candidato Zen não conseguindo mostrar musculatura para uma disputa equilibrada, na cabeça das intenções de voto.

Declaração de apoio a Socorro Neri há algumas semanas causou impacto

Progressistas rachado

Em outros partidos, a ação do governador teve papel fulminante e mais explícito. O Progressistas está rachado ao meio, entre os novos desafetos do governador, especialmente os ligados à senadora Mailza Gomes em contraposição aos deputados e prefeitos, que manifestaram publicamente apoio às posições de Gladson na rejeição ao candidato lançado, Tião Bocalom. Se Gladson definir a saída do Progressistas, deixará para trás um partido e uma candidatura enfraquecidos.

Ontem, o pastor Reginaldo Ferreira, do diretório municipal do Progressistas, foi às redes postar um pedido de perdão em termos quase de súplica ao governador, pelos impropérios que vazaram de uma conversa sua com dirigentes em Brasília. Ao revelar que procurou Gladson para desculpas pessoais e não foi recebido, o pastor mostrou a impossibilidade de convivência dos dois grupos dentro da legenda.

Com isso, a candidatura a prefeito de Tião Bocalom dependerá cada vez mais da aliança com o senador Petecão, muito mais do que com a força partidária do Progressistas, agora sem apoio do governo do estado, que negou publicamente seu reconhecimento.

Deputada federal Mara Rocha não abre mão de apoio a Minoru

Disputa de hegemonia no PSDB

A possível entrada do Governador no PSDB carrega outras situações conflitantes, de difícil solução, embora sua adesão tenha sido louvada pelo vice-governador Rocha e suas influências dentro da legenda tucana. Acontece que Gladson não pode e não precisa entrar no partido como soldado. Só faz sentido sua adesão se ficar como Comandante. que seria, obviamente, um golpe na estrutura do poder da família Rocha no PSDB. O governador já foi previamente hostilizado pela deputada Federal Mara Rocha que, agora, reafirmou sua proeminência na legenda, no estado, recusando de imediato qualquer composição eleitoral em relação à candidatura já lançada pelo partido, do ex-reitor Minoru Kinpara.

Mara Rocha, seus aliados no PSDB e o próprio Minoru, em publicação, ontem, rejeitaram a possibilidade de aliança com a prefeita Socorro Neri, com a indicação de Minoru como vice na chapa. Embora pudesse ser uma grande jogada política e eleitoral, deve encontrar resistências tão grandes quanto a proposta que o governador fez, anteriormente, aos Progressistas da retirada da candidatura de Bocalom.

Se a ideia do corte da candidatura de Minoru dentro do PSDB não prosperar, o governador, que ainda ontem reafirmou seu apoio à prefeita Socorro Neri, dizendo que não mudará de ideia, terá a desculpa formal para não aderir ao partido. Ele poderá se julgar preterido pela direção regional.

Se essa adesão não se concretizar, de qualquer forma, Gladson terá enfraquecido a coesão e o discurso tucano no estado. Causou até espasmos de ação no PSL, com o relançamento da candidatura do coronel Ulysses, rapidamente recusada pela liderança do diretório. Mas, principalmente, mostraria que o PSDB acreano não estaria alinhado a direção Nacional do partido, que recebeu o governador acreano Gladson Cameli com o tapete estendido. Pode também explicitar desavenças entre o governador João Dória de São Paulo e a direção tucana no Acre, especialmente como reflexo da adesão do vice-governador Rocha ao PSL que, em São Paulo, reúne desafetos de Dória.

Assim, quer obtenha êxito ou não na sua incursão ao PSDB, o governador mexeu nas bases do partido. Se conseguir entrar e dominar a legenda, como seria de se esperar, marcaria uma nova realidade política para 2022 sem a proeminência dos Rocha entre os tucanos. Bom lembrar que Gladson havia convidado Minoru Kinpara para o Progressistas, mas ele preferiu o PSDB na época.

MDB de Marcio Bittar já formulou convite a Gladson Cameli

A opção MDB

Nos meios políticos, corre uma teoria de que, na verdade, a solução para esses conflitos políticos passaria por um partido até então fora da órbita: o MDB. Esse pode ser o destino final de Gladson. Este pensamento estaria ligado às afinidades crescentes de Gladson Cameli com o senador Márcio Bittar e os objetivos políticos de ambos a médio prazo.

Dentro deste aspecto, não seria surpreendente se Gladson, alegando falta de apoio dos partidos aos quais buscou guarida até agora, aceite o convite já formulado do MDB entre no partido. Ele poderia costurar uma até agora Improvável aliança entre Socorro Neri e Roberto Duarte, candidato do partido à prefeitura, que não tem conseguido emplacar alianças de peso em sua campanha. Como pano de fundo para essa possibilidade, estaria a disputa de 2022, com novas possibilidades políticas que ficariam em aberto.
Seja como for, a política acreana está em suspenso, a campanha para as eleições municipais está parada até, pelo menos, a volta do governador na próxima semana. A sucessão municipal está inteiramente nas mãos do governador. Isso é inegável.