Ilson Nascimento: cala-se uma voz gentil e competente da imprensa acreana


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Amigo de todos, especialmente da população do interior do Acre, a quem falava com a postura de alguém próximo, quase da família. Um profissional de talento excepcional, de vontade férrea, que cresceu na profissão por méritos próprios, sem nunca precisar pisar em alguém, que nunca teve um gesto ríspido ou alho que pudesse se arrepender. Assim foi a vida de Ilson Nascimento, o Ilson maninha, que faleceu prematuramente esta semana, depois de uma longa enfermidade, por falência dos rins e problemas decorrentes de hemodiálise.

Foto: Reprodução

Nascido no seringal Novo Cateto, em Xapuri, de onde saiu aos sete anos, trazia a floresta, a natureza e o interior do Acre dentro do coração, um amor que durou para sempre. Trabalhou duro na imprensa, começou por baixo, ainda nos tempos do linotipo, carregando o pesado chumbo, fazendo o que se chama de “cozinha” da oficina, mas com dedicação e com um talento especial foi galgando o respeito e o conhecimento da profissão de jornalista.

Quem o levou para O Rio Branco foi o ícone da imprensa acreana, José Chalub Leite, que viu nos olhos daquele menino a vocação da imprensa, a vontade de trabalhar. Sua entrada na estrutura de comunicação do governo se deu pelo jornalista Luís Carlos Moreira Jorge, ainda nos tempos do governo Geraldo mesquita, quando Ilson passou a trabalhar diretamente com a notícia.

Nunca perdeu o eito afável, carinhoso, o jeito moleque e respeitoso. Migo dos mais velhos, exemplo para os mais novos, durante mais de 30 anos de Rádio Difusora foi o que se chama de “pé de boi”, o homem capaz de assumir os trabalhos mais duros com capacidade e dedicação, com talento e vontade. Coordenador de jornalismo da Rádio Difusora, manteve sempre uma posição profissional, sabendo que a informação não tem cor partidária, não tem preferência, mas que exige a clareza e a isenção.

Era metódico na vida e nas relações. Filho amoroso de dona Irene, todos os dias pedia benção da mãe, uma senhora de 82 anos, que se orgulhava do filho e tinha em seu conato diário uma tradição e a grande alegria. Casado por mais de 40 anos com dona Bruna Jorgete, que lhe deu três filhos. Seu amor à família e aos netos era absoluto e motivo de alegria permanente.

Chegava cedo á Rádio Difusora, para preparar o jornal das seis horas da manhã, líder de audiência em todo o Acre. Sabia da responsabilidade de falar com o acreano mais humilde, com gente que, como ele, nasceu no seringal e tinha orgulho e cuidado com isso.

O ambiente de trabalho bom e sadio era sua preocupação. Aprendeu com José Leite que as brincadeiras tornam o trabalho melhor, mas dentro do respeito e do compromisso. Personagem central do jornalismo acreano, tem muitas histórias, muito aumentadas pelo espírito crítico de Zé Leite, que o fazia de personagem assíduo de suas bem-humoradas crônicas.

Ildo Nascimento percorreu governos diversos e nunca se deixou influenciar pela cor partidária acima da amizade pessoal. Foi amigo do governador Edmundo Pinto, a quem fez uma cobertura emocionada e especial quando de sua trágica morte, de Jorge e Tião Viana. Com o governador Tião Viana sempre teve uma relação de respeito e amizade, de admiração recíproca.

Embora tenha recebido prêmios em vida, como a medalha de mérito profissional, em 2004, o Acre e a classe jornalística não prestigiaram Ilson como ele merecia. Foi tímida a presença de profissionais da imprensa e de políticos em seu funeral e velório, bem abaixo do que ele merecia e das pessoas que ele ajudou na vida. Talvez por nunca ter exercido a profissão com interesse próprio, de nunca ter se valido de seu talento para tirar vantagens, Ilson não tenha sido valorizado como seu extraordinário talento merecia.

Ainda assim, foi homenageado pelo governador Tião Viana, que em nota oficial por seu falecimento destacou que ele era “Figura marcante, era popularmente conhecido entre os colegas da imprensa pela gentileza e amor à profissão”. Diz a nota oficial também que “atuando no Sistema Público de Comunicação há pelo menos 30 anos, Ilson Nascimento tinha qualidades que certamente inspiraram e motivaram outras pessoas a seguir seu exemplo na busca por uma sociedade melhor e de paz. Com sentimentos de profundo pesar, desejamos que Deus possa confortar os corações dos familiares, dos amigos e de toda a família Difusora Acreana, que perde um de seus principais guerreiros”. O prefeito Marcus Alexandre também emitiu com sua vice Socorro Neri nota oficial em que destaca a “forma gentil com que tratava a todos e a importância de sua contribuição e legado ao jornalismo acreano”.

O sindicato dos jornalistas ressaltou, em nota muito curta e econômica frente à grandeza de Ilson nascimento, que “O silêncio toma conta de todos os jornalistas, no rádio deixará uma falta e na vida uma saudade”.