Artigo

Pai coruja

Kym Yarzon

Quando um pai e uma mãe são superprotetores e não enxergam nenhuma imperfeição em sua prole, costumam ser denominados de pai e mãe “coruja”. A expressão originou-se com a fábula “A coruja e a Águia” do escritor francês La Fontaine, também reescrita por Monteiro Lobato e outros autores. Em resumo, a fábula descreve o diálogo entre uma coruja e uma águia, no decorrer da história a coruja pede à águia que não coma seus filhotes e os caracteriza como lindos e com biquinhos bem feitos. Porém, quando a coruja retorna e defronta-se com seu ninho vazio vai logo tirar satisfação com a águia, e a mesma alega que encontrou uns filhotes depenados e sem bico, e como não correspondia com a descrição feita pela coruja os comeu.

Não diferente da coruja da fábula, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), tem se mostrado um pai superprotetor. Aliás, a cegueira do presidente em relação às imperfeições dos filhos fica evidente quando ele alega que seu filho mais novo, Renan, o 04, já namorou a metade do condomínio em que mora, o que rapidamente virou motivo de chacota nas redes sociais.

Como se não bastasse, as coincidências entre a coruja e o presidente não param por aí. Assim como na fábula, a superproteção paterna de Jair colocou um de seus protegidos em perigo. Pois, o indicado do presidente, Fabrício Queiroz, para assessorar Flávio Bolsonaro, atualmente senador do Rio de Janeiro pelo Republicanos, quando ainda era deputado estadual pelo Rio de Janeiro, colocou o primogênito de Bolsonaro na mira da Justiça.

Os avanços nas investigações do esquema de “rachadinha” de Flávio Bolsonaro e seu assessor, Queiroz, explicam a troca do superintendente da Polícia Federal (PF) do Rio de Janeiro, determinada pelo presidente, mesmo sem conhecimento da cúpula da PF, em agosto de 2019. Flávio Bolsonaro já tentou por diversas vezes barrar as investigações, mas as mesmas seguem avançando. Recentemente o Ministério Público – MP do Rio de Janeiro concluiu, através do cruzamento de informações bancárias de 86 pessoas suspeitas, que o esquema serviu para irrigar o ramo imobiliário controlado por milícias e que o senador estaria recebendo o lucro de seu “investimento”.

Além disso, não é somente o primogênito de Bolsonaro que requer o aconchego das “asas” do “corujão”. Pois, uma equipe da PF que investiga as fake News contra o Supremo Tribunal Federal (STF) identificou Carlos Bolsonaro, vereador do Rio de Janeiro pelo Republicanos, também conhecido como 02, como articulador das publicações. Ademais, os policiais responsáveis pelas investigações garantem que o filho do presidente (02) é um dos coordenadores de ataques ao Supremo e ao Congresso Nacional. Além do que, a PF também investiga a possível participação de Eduardo Bolsonaro, deputado federal de São Paulo pelo Partido Social Liberal (PSL), nos crimes alvos da investigação.

Diante do exposto, fica evidente que o cerco sobre os filhos do presidente foi um dos fatores determinantes para a tentativa de substituição de Maurício Valeixo por Alexandre Ramagem, amigo íntimo de Carlos Bolsonaro, no comando da PF. A substituição só não foi concluída devido à suspensão determinada pelo ministro do STF Alexandre Moraes, que viu indício de desvio de finalidade na escolha do delegado, visto a aproximação de Ramagem com a família Bolsonaro.

A exoneração de Valeixo acarretou na renúncia de Sérgio Moro, ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, que acabou fazendo uma “delação premiada” em sua coletiva de imprensa. Se por um lado a superproteção da coruja da fábula acarretou na morte de seus filhotes, o “corujão” da presidência da República está disposto a ir mais além, pois coloca sua própria cabeça em risco.  Como diz o ditado: “Quem ama o feio, bonito lhe parece”.

Só nos resta saber até quando a população vai aguentar um pai coruja que só se importa com os seus e despreza os filhos dos demais brasileiros quando reage com um: e daí? Ao ser indagado sobre o aumento do número de mortes pela covid-19 no país.

*Kym Yarzon é gestor ambiental e ativista