Mais de 200 imigrantes retidos na fronteira do Acre e Peru devem fazer testes para Covid-19

Alcinete Gadelha

Após uma imigrante testar positivo para Covid-19, a prefeitura de Assis Brasil, no interior do Acre, se prepara para fazer a testagem dos quase 300 imigrantes que estão na cidade tentando atravessar a fronteira do Acre com o Peru. A informação foi repassada pelo prefeito Jerry Correia.

“Nós recebemos testes do governo e junto com os técnicos da saúde do governo estamos preparando um plano de testagem. Nós temos dois problemas; primeiro a resistência deles, e a gente não pode forçar e segundo que nós não temos, em eventuais casos positivos, onde colocar e isolar. Já falei isso até com a presença do representante do governo federal. Não temos suporte médico suficiente nem para a população”, disse.

Uma haitiana de aproximadamente 35 anos foi levada para o hospital regional de Brasileia, e agravou o quadro e foi transferida para Rio Branco. O plano deve ser apresentado para iniciar a testagem nesta segunda-feira (22).

A Secretaria Estadual de Saúde (Sesacre) informou que o estado ofertou 600 testes que estão sob responsabilidade da unidade estadual mista de Assis Brasil e serão disponibilizados ao município após a entrega do plano ao Comitê Operacional de Emergência da secretaria. Para isso, o município precisa elaborar um plano de testagem, considerando que não pode ser em massa, uma vez que a doença tem o tempo de janela imunológica para aparecer no teste rápido.

A secretaria informou ainda que orientou o município para que a testagem não seja no abrigo e nem nas unidades sentinelas para Covid. Na intenção de não misturar os usuários do SUS. Além disso, a testagem também deve funcionar como um cadastro dos imigrantes.

O imigrante novo que chegar, ao solicitar acesso ao abrigo, deverá ser direcionado ao centro de testagem e atendimento médico ao imigrante para que, de acordo com a triagem e, se houver necessidade do teste rápido, esse imigrante tenha um destino correto, sem possibilidade de contaminar os imigrantes já alojados.

Ocupação
A situação dos imigrantes começou a ficar tensa no último domingo (14), quando cerca de 400 imigrantes deixaram os abrigos que ocupavam e se concentrarem na Ponte da Integração, na fronteira com o Peru. Os imigrantes tentavam deixar o país, mas foram barrados pelas autoridades peruanas.

Na terça (16), os imigrantes enfrentaram a polícia peruana e invadiram a cidade de Iñapari, no lado peruano da fronteira. Depois de confronto, o grupo foi reunido pelos policiais peruanos e mandado de volta para Assis Brasil.

A cidade de Assis Brasil registrou até sábado (20), 1.044 casos de Covid-19. De acordo com o boletim da Sesacre, o município tem a maior taxa de contaminação pela doença no estado com 1.385 caos a cada 10 mil habitantes.

60 imigrantes ocupam ponte
Pelo menos 60 imigrantes que fazem rota reversa pelo Acre e tentam entrar no Peru continuam a acampados na Ponte da Integração, uma semana depois de ocuparem o local. Ao todo a cidade ainda tem quase 300 imigrantes depois de ter mais de 500.

“A gente detectou nos últimos dois dias o retorno de alguns para Brasileia na tentativa de ingressar pela Cobija, mas lá eles também não estão obtendo sucesso, mas um grupo de 20 que retornou e tem mais um grupo de outros 20 querendo voltar”, disse o prefeito.

Dados da Secretaria Assistência Social, dos Direitos Humanos e Políticas para Mulheres do Acre (Seasdhm), apontam que 60 pessoas estão sobre a ponte; 132 na Escola Irís Célia; 67 na Escola Edilsa e outros 40 no Hotel Bandeira.

“Nós conversamos com alguns líderes dos grupos e fizemos esse apelo para que eles voltassem para os abrigos para aguardar que essa situação seja resolvida a nível de instâncias superiores. Algumas famílias retornaram ao abrigo e tivemos um bom resultado, ontem já não tinha muitas pessoas sobre a ponte”, disse a secretária da Seasdhm, Ana Paula Lima.

A secretária reforçou que muitos imigrantes estão retornando. “Estão retornando e nenhum deles voltou para Rio Branco e procurou nossos abrigos, que continua sem ninguém dessa demanda, eles vieram, compraram passagem e já retornaram. Então, creio que vai dar uma amenizada no fluxo reverso.”

Ana Paula disse ainda que a secretaria tem incentivado que outros imigrantes não venham para o estado na tentativa de cruzar a fronteira, porque está fechada.

“Porque se vier é gasto de recurso, vulnerabilidade e tem a questão também da Covid que nos preocupamos e daqui 15 dias possa ser que a gente veja o resultado dessa aglomeração”, afirma.

Fronteira
No último dia 18, a Força Nacional foi autorizada a atuar na fronteira. Sobre a situação na fronteira , o secretário de Segurança Pública, Paulo César Santos, informou que as forças estaduais vão continuar na região fazendo o fortalecimento do policiamento ostensivo, no sentido de garantir tranquilidade pública, que as pessoas que se encontram em abrigos, principalmente aquelas que tem sintomas de Covid, evitando que a crise sanitária também se alastre naquela região e no combate ao tráfico internacional de pessoas. A fronteira do lado brasileiro não deve ser fechada.

“Quanto a Força Nacional, o ato normativo publicado pelo Ministério da Justiça, a princípio está com vício, está sendo corrigido, que é derivado da competência para realizar polícia de fronteira. Consequentemente a Polícia Federal, junto com a Senas, entraram em contato com o ministro no sentido de rever os termos da portaria e consequentemente, o que foi destinado ao estado permanece com a União em apoio a PF que já se encontra na região de fronteira bem como a Força Nacional e vão passar a cuidar das questões de alfândega e a migração”, disse.

Visita em Assis Brasil
O Secretário Nacional de Assistência Social, do Ministério da Cidadania, Miguel Ângelo Gomes, esteve na sexta (19) em Assis Brasil para ver de perto a situação dos imigrantes que estão no município acreano e tentam atravessar a fronteira para deixar o Brasil.

O representante do governo federal se reuniu com o governador da Província de Madre De Dios, Luis Guillermo Hidalgo Okimura, e o prefeito de Iñapari, Abraão Cardoso. Na conversa, segundo a Agência do Governo do Acre, as autoridades peruanas informaram que o país avalia uma forma de abrir a fronteira para liberar a passagem dos imigrantes, mas que, por enquanto, a fronteira no lado peruano segue fechada.

Guillermo disse ainda, à Agência do Governo do Acre, que o ministro do Meio Ambiente do Peru, Gabriel Quijandria, deve ir a Iñapari no domingo (21) para levar uma resposta do presidente do Peru sobre o impasse. O gestor peruano teria afirmado ainda que a situação se agravou após os estrangeiros terem tentado ultrapassar a fronteira sem autorização.

Ainda ao portal do Governo do Acre, o Secretário Nacional de Assistência Social reconheceu que o problema precisa ser resolvido de imediato, por se tratar de uma situação diplomática, mas não disse como o governo federal deve resolver a situação diplomática, mas não disse como o governo federal deve resolver a situação.

Gomes afirmou que o Ministério da Cidadania vai ajudar o estado e o município no enfrentamento do que chamou de crise humanitária na fronteira. “Viemos para conhecer a realidade e ouvir as demandas da prefeitura, que está na linha de frente dessa situação. De posse do relatório detalhado, iremos agilizar a ajuda dentro daquilo que a urgência nos permite.”

Plano de ação
O prefeito de Assis Brasil diz que a cidade não precisa somente de recurso para assistência mas, sim, de um plano para resolver a situação que já se estende há mais de ano.

“O governo federal precisa tirar a visão meramente assistencialista. Além de toda boa vontade de prestar assistência, talvez liberar recursos financeiros, o município não suporta mais isso. Estamos deixando nossas atividades, o cuidado com nossa população para ficar apenas cuidando da situação imigratória”, afirmou.

Por conta da pandemia e para tentar evitar a proliferação do vírus dentro dos abrigos, equipes de saúde estão nas duas escolas que recebem imigrantes.

Ponte fechada para passagem de imigrantes de Assis Brasil para o Peru — Foto: Arquivo/Prefeitura
Ponte fechada para passagem de imigrantes de Assis Brasil para o Peru — Foto: Arquivo/Prefeitura

Rotas
São duas situações que fazem com que o número de imigrantes cresça na cidade de Assis Brasil; a primeira, a de imigrantes que entraram no Brasil entre 2010 e 2016 em busca de uma vida melhor e, com a crise da pandemia, tentam sair do país para seguir viagem até México, Canadá, Estados Unidos e outros países.

A segunda é que o Peru, mesmo fechando a passagem para a entrada de imigrantes, libera a saída deles para o lado brasileiro, então é uma porta de entrada para venezuelanos.

Notas
Em nota, a embaixada do Peru no Brasil informou que o país está com as fronteiras fechadas para evitar a propagação da Covid-19. O documento diz ainda que a embaixada entrou em contato com as autoridades municipais, estaduais e federais no Brasil para que as mesas entrem em um acordo com os estrangeiros para que eles desocupem a ponte e voltem para os abrigos na cidade acreana. Ainda segundo a nota, o fechamento das fronteiras é uma das principais medidas de combate ao novo coronavírus naquele país.

O Itamaraty disse que tem mantido contato com as autoridades peruanas sobre o assunto, mas que o país diz que vai manter as fronteiras fechadas.

“Em função do agravamento da pandemia do novo coronavírus, as fronteiras terrestres do Peru encontram-se fechadas para o ingresso de estrangeiros não residentes, por decreto daquele país. O Itamaraty tem mantido contato com as autoridades peruanas sobre o tema, nos mais diferentes níveis, as quais têm reafirmado a situação de fechamento fronteiriço no contexto da crise sanitária.

O Ministro das Relações Exteriores participou de reunião informal, por videoconferência, a pedido de parlamentares do Acre, que transmitiram sua preocupação com a situação de migrantes no Estado que buscam cruzar a fronteira para o Peru. Também participaram representantes do governo do Acre e da prefeitura de Assis Brasil.”