PANDEMIA NO ACRE – As igrejas, assim como todas as atividades sociais e comerciais do Estado, são parte da solução

Por Thor Dantas

Fui pego de surpresa pela polêmica em torno do papel dos cultos religiosos na disseminação da Covid no Acre. Pelo que entendi, a reação das associações de igrejas se deu a matérias publicadas nas mídias locais dando conta que eu imputava a elas o aumento do número de casos no Estado. Frases fora de contexto adoram alimentar polêmicas.

Comentei publicamente sobre um estudo lançado na prestigiosa revista científica Nature, que mapeou a mobilidade de 98 milhões de pessoas nos EUA, a cada hora do dia, anonimamente, através do sinal de GPS dos celulares e cruzou, em um modelo matemático, com a ocorrência de casos de Covid.

Aquele estudo mostrou o que diversos outros, e até o senso comum, já vêm dizendo: a disseminação da Covid guarda íntima relação com aglomeração, ou seja, com o número de pessoas por metro quadrado. Desse fato, advém o conceito de “superespalhadores”, eventos ou locais que contribuem para elevada transmissão, exatamente por promoverem o contato entre muitas pessoas ao mesmo tempo.

Ambientes fechados e cheios de gente estão associados a elevada transmissão de todos os vírus respiratórios, incluindo o novo coronavírus. A redução da ocupação de determinado ambiente para 20% de sua capacidade, reduz a transmissão da Covid em 80%. A relação é direta. Por isso restringir a ocupação de ambientes fechados é mais eficaz do que restringir uniformemente a mobilidade populacional.

O estudo da Nature, e não eu, é quem cita restaurantes, bares, cafés, academias, hotéis, lojas de departamento e igrejas. O estudo ainda mostra um aspecto da desigualdade social: quanto mais de baixa renda é a região, mais pessoas por metro quadrado ocupam esses espaços.

O que acrescentei na lista, por minha conta, foram as campanhas eleitorais que, como ficou evidente, ainda não aprenderam também a como se adaptar aos novos tempos.

Há ainda um outro importante item nessa lista: as aglomerações particulares, em casas e ambientes privados, por vezes com interesses comerciais, por vezes muito numerosas, e difíceis de serem alcançadas tanto pela conscientização quanto pela fiscalização.

Não desejo de forma alguma imputar culpa a ninguém em particular. E peço, desde já, sinceras desculpas a todos que possam ter se sentido ofendidos. Busco a solução e não o problema. Sou pelo entendimento acima do conflito.

A religião é uma necessidade humana, como também o são a arte, a música, o lazer, a atividade física. Com a perspectiva de duração prolongada da pandemia, todas essas nossas necessidades devem encontrar seu modo de funcionamento adaptado a esse momento pandêmico tão singular que vivemos.

Se as igrejas acharem que a culpa é só do bar, o bar alegar que o problema é a academia, a academia acusar a política e, na política, cada candidatura culpar o adversário, não iremos a lugar algum. O quão comum é o discurso de que “eu faço a minha parte, o problema é o meu concorrente/vizinho/amigo ali do lado que não faz”. E assim caminhamos, todos juntos, para a segunda onda.

Penso que é preciso inverter a lógica. Ao invés de aguardarmos ansiosos a cada 15 dias para saber se regredimos de faixa, poderíamos trabalhar juntos para evitar que tenhamos retrocesso. Todos estão cansados de conviver com esse incômodo problema, mas infelizmente não existe solução fácil.

Nós, profissionais de saúde que cuidamos de pacientes no dia-a-dia dos hospitais, também estamos cansados de ver a vida de tantas pessoas, que significam tanto para os seus, sendo abreviada tão inesperadamente.

Hoje, em particular, me sinto profundamente triste pela iminente perda de um paciente que há dias luto arduamente para salvar dentro da UTI-Covid. Um homem de Deus. Um esposo amado, um irmão querido, de mais uma família que sofre inconsolável. E eu sofro junto.

Novamente, não se trata de botar a culpa na conta de ninguém, mas de assumir que a responsabilidade é de todos nós. Só assim é possível enfrentar o grave problema.

As mesmas atividades que têm potencial de aglomerar, têm, exatamente por isso, o enorme potencial de evitar a disseminação. Todos podemos sair de problema à solução em simples tomadas de atitude.

Nesse sentido, entendo que as igrejas são parte da solução, assim como todas as atividades sociais e comerciais do Estado.

Minha sugestão é para que unamo-nos em torno desse desafio em comum. Encontremos juntos as soluções. Ajudemos a educar a população, a mudar atitudes, a cobrar das autoridades ao mesmo tempo em que fazemos a nossa parte.

Sejamos a mudança.

Sigamos juntos.

Forte e fraterno abraço!

Thor Dantas é médico infectologista.