Regressão à bandeira amarela: a face da irresponsabilidade

Próxima avaliação está prevista para o dia 23 de dezembro Foto: Odair Leal

O Comitê de Acompanhamento Especial da Covid-19 anunciou hoje, dia 11, pela manhã, que a regional de saúde do Baixo Acre/Purus regrediu da bandeira amarela para a laranja. Essa decisão engloba os municípios de Acrelândia, Bujari, Capixaba, Jordão, Manoel Urbano, Plácido de Castro, Porto Acre, Rio Branco, Santa Rosa do Purus, Sena Madureira e Senador Guiomard.

Essa era uma decisão inevitável diante da inconsequência, da irresponsabilidade da população, que vem vivendo como se a pandemia tivesse acabado, sem se preocupar com o evidente aumento do número de casos, de mortes, com a doença chegando cada vez mais perto, afetando os parentes mais velhos, os amigos, impactando a sociedade, enchendo hospitais, UTIs, sobrecarregando as equipes de saúde.

O período analisado para a atual classificação foi de 22 de novembro a 5 de dezembro. Exatamente o auge da campanha eleitoral, período em que explodiram os casos que, com certeza, foram contraídos ainda antes do primeiro turno das eleições em todas as cidades e agravados com a festa sem controle que vidou o segundo turno na capital.

Por todo canto, o que se viu foi o descumprimento das regras básicas, do novo normal com que o mundo teve que aprender a conviver desde março, quando a pandemia explodiu. Foi o tempo do negacionismo, do abandono das máscaras, com candidatos carregando crianças, abraçando eleitores, bandeiraços, arrastões nos bairros, reuniões com até 200 pessoas.

Tudo isso em um arremedo malfeito de preocupação, apesar dos alertas dos especialistas, apontados como profetas do caos, emissários do capeta que queriam fechar igrejas, inimigos dos bares e do churrasco em família. Mas eles estavam e sempre estiveram certos.

A pandemia não se combate com negações, não acaba pela vontade da maioria. O vírus não tem religião, não tem preferência partidária, não tem cor e nem opinião própria. Ele só mata quem zomba de seu perigo.

Candidatos ousaram dizer que as medidas estavam severas demais, que era preciso abrir tudo, retornar as aulas, salvar o comércio. Balela. Tudo para ganhar votos dos incautos. Agora o castigo vem a cavalo. A piora dos indicadores, a temível e sempre ignorada segunda onda. Ainda mais brutal. E prevista, rigorosamente. pela ciência. Em todas as pandemias anteriores, houve uma segunda onda mais letal e abrangente.

Rio Branco resistiu bravamente ao pico da epidemia porque, ao contrário de capitais vizinhas, fez seu dever de casa. Enquanto Porto Velho, Manaus, Belém, Macapá se tornaram assunto nacional com a explosão do coronavírus, Rio Branco e o Acre eram exemplos de distanciamento. Por várias semanas Rio Branco figurou como a capital em que se registraram os maiores índices de isolamento social. Mas muita gente combateu as medidas impostas, sem atinar que elas não tinham por objetivo impedir a doença, mas prevenir o caos no sistema de saúde. Impedir que faltassem leitos, UTIs, assistência. E isso foi alcançado. O Acre não viveu o caos que atingiu outros locais.

O governador Gladson Cameli agiu rápido, assessorado por um comitê técnico, implantando em tempo recorde novos hospitais, que de hospitais de campanha não tiveram nada, se tornaram estruturas definitivas na capital e em Cruzeiro do Sul. E sob intensa pressão de quem tentava buscar pelo em ovo, escarafunchando contas, minúcias, por motivos políticos, sem compreender que no Acre não acontecia o festival de irregularidades que marcou o país, quando até uma adega em Manaus vendeu respiradores, nunca entregues ai governo de lá. Aqui, cada ação deu resultado.

Em Rio Branco, a prefeita Socorro Neri assumiu posição firme ao lado da luta contra a doença, encarou medidas impopulares, mas absolutamente necessárias, que podem ter lhe custado a reeleição. Mas agiu dentro de absoluta transparência, com as contas e ações publicadas em tempo real para controle. Ainda assim, foi vítima de ataques, de mentiras, de baixarias, de um falso escândalo de álcool gel, que de tão absurdo foi devidamente esquecido após a campanha política.

Prefeita e governador descobriram, na pandemia, insuspeita identidade, que não foi tolerada pela classe política radical, polarizada, que só enxerga o preto e branco de suas conveniências.

O que se vê agora é que o vírus se aproveitou dessa leniência e voltou com mais perigo. Os que se opunham à abertura gradual e segura, agora terão que conviver com restrições ainda maiores. Vai acabar a ilusão de réveillons de festa, de confraternização, o último baile do Titanic revivido em plena pandemia.

Com certeza haverá gente para por a culpa no governo estadual e municipal. Líderes religiosos que escaparam por pouco da morte, porque tiveram condições de tratamento que a população mais pobre não possui, terão coragem de combater as restrições aos cultos? Donos de restaurantes e bares, que insistentemente burlaram os decretos, com festas e clima de vale tudo, terão coragem de assumir seus erros? Políticos que promoveram aglomerações terão mesmo moral para enfrentar a realidade científica e factual mostrada pelo Comitê?

O Acre não de se dar ao luxo de agir como os bizantinos em Constantinopla, que debatiam o sexo dos anjos enquanto as tropas inimigas conquistavam a cidade. É preciso estar atento. Não basta esperar a panaceia da vacina, que não será a solução de curto prezo, ainda mais no Brasil, que nem plano oficial e nem oferta de vacinas suficientes e insumos possui.

O que é preciso é pagar o preço do descaso. É isso que natureza, o exemplo histórico e o coronavírus nos ensinam, mesmo a contragosto.