Saída de Gladson do PP mexe com o panorama político do Estado

A eventual saída do governador Gladson Cameli do Progressistas deixa em aberto o panorama político do Acre. Representa a maior guinada política de um governador na história do estado, embira não seja a primeira troca de partido de um dirigente estadual. Basta lembrar que o próprio tio de Gladson, Orleir Cameli, quando no governo, se filiou ao então PFL para ampliar sua base política e evitar os ataques que sofria no Congresso e em várias instituições.

O governador Edmundo Pinto também vivia uma relação de amor e ódio com o então PDS, embrião do atual PP. No plano regional, teve que conquistar a indicação para a disputa do governo, em uma convenção marcada por tentativas de boicote e foi obrigado a aceitar um vice que não desejava, Romildo Magalhães, em vez daquele de sua preferência, a então deputada Maria das Vitórias. No plano nacional, ao ser esquecido na propaganda partidária do PDS na TV, disse que o partido deveria vir ao Acre aprender como se ganhar uma eleição.

Antes disso, ainda n regime militar, o governador Geraldo Mesquita já havia rompido com grande parte da estrutura da Arena em seu conturbado governo, dividindo o partido no estado, abandonando a ala ligada ao seu antecessor, Wanderlei Dantas, de quem se tornou notório desafeto, além do ex-governador Jorge Kalume. Mesquita ainda conseguiu indicar seu sucessor, vencendo seus adversários dentro do partido.

A situação do governador Gladson Cameli, porém, é distinta. Ele liderou uma conjunção de forças que levou a oposição a uma vitória nas urnas depois de 20 anos de hegemonia do PT. Era considerado unanimemente o único nome capaz de derrotar o legado petista. Com isso, conseguiu uma rara união de interesses na eleição. Mas a coalizão enfrentou os primeiros problemas ainda antes da formação do governo, com intensa disputa de grupos políticos pelo comando de postos-chave na administração.

Gladson se recusou a ceder à sanha partidária alguns cargos de importância capital em seu governo, especialmente os ligados ao comando das verbas e recursos estaduais. Montou um grupo próprio na secretaria da Fazenda, no gabinete civil e vem comandando pessoalmente esse setor, com pessoas de sua confiança e escolha, sempre se justificando que não quer “nenhuma mancha em seu CPF”. Ao mesmo tempo, faz agrados aos apoiadores e partidos então aliados com ampla distribuição de cargos comissionados e de outras secretarias e órgãos públicos.

O próprio Bocalom, hoje desafeto foi abrigado na Emater por alguns meses, sem ter produzido um fato sequer digno de destaque em sua biografia, no primeiro cargo público que exerceu depois de 20 anos.

A saída de Gladson do Progressistas deve levar a uma reformulação de seu governo, ainda que localizada. Como o governador levará, em sua diáspora, muitas lideranças importantes do Progressistas, esses dissidentes devem manter a estrutura que já possuem na administração estadual. Mas outras áreas devem ter mudanças bruscas, como as que estão em poder da senadora Mailza Gomes, que herdou o mandato originalmente do governador Os novos desafetos de Gladson seriam o esposo da senadora, o ex-prefeito de Senador Guiomard James Gomes e o presidente do diretório municipal do PP, Pastor Reginaldo Ferreira, que falou impropérios sobre o governador, devidamente gravados e enviados a Gladson. Mais uma prova de que o Acre é terra de muros baixos.

Composição política

Em política não existe vácuo. Por isso, uma mudança dessa magnitude implica em rearranjos não só na estrutura do governo, como nas forças abandonadas pelo governador e até na oposição mais à esquerda.

Se o Progressistas mantiver a candidatura de Bocalom, ela será cada vez mais dependente e ligada ao senador Sérgio Petecão, do PSD, que indicará a vice, sua esposa, Marfisa, que ganhará espaço e importância, Sem o governador para dar peso, o candidato do PP ainda que lidere a chapa, irá a reboque da estrutura de sua vice e do PSD que será maior do que o que restar do PP em apoio ao candidato.

Claro que a cobiça falará alto, especialmente por parte dos que querem se aproveitar do conflito em busca de espaço em um governo que vem mantendo reconhecidos bons níveis de aprovação popular. Isso é uma realidade tanto na oposição de centro, de direita e de esquerda, que buscam espaços políticos.

Para a recomposição do governo, Gladson poderá contar com uma constelação partidária. O DEM do deputado Alan Rick, que já conquistou lugar na administração da prefeita Socorro Neri e tem mantido frequentes trocas de amabilidades entre o deputado e a prefeita, pode ampliar seu espaço também na administração estadual. O mesmo deve acontecer com o Solidariedade, da deputada Vanda Milani, também com boas relações tanto com a prefeita, como com o governador. O partido abriu mão de candidatura própria à prefeitura da capital para se manter por suas próprias declarações, “na sombra” do poder.

O mesmo se dá cm o pequeno PROS, da deputada Maria Antônia hoje já incorporado ao governo.

Uma situação mais delicada se dará com o Republicanos. De forte base evangélica, setores do partido ainda veem na prefeita Socorro Neri uma aliada do PT, Mas esse obstáculo vai sendo quebrado, pela ação da deputada Dra. Juliana e do deputado federal Manoel Marcos. Resta saber qual a posição da ex-deputada Antônia Lúcia, a verdadeira dona da legenda no estado. Entretanto, para o partido, a disputa por vagas de vereadores e presença no governo pode ser mais importante.

Curioso será ver a posição à esquerda, com o PSB e o PC do B. O partido da prefeita não deve ser obstáculo à ação de união com o governador, especialmente com o parentesco e a possível recomposição do presidente do PSB, ex-deputado César Messias com Gladson. Isso deve acontecer ainda que o deputado Jenilson Leite seja um crítico contumaz do governo. Reeleito vice-presidente da Assembleiam com o apoio e beneplácito do presidente Nicolau Júnior, que acompanhará Gladson Cameli, pode até haver, no futuro, uma conjunção de conveniências para a aproximação, em linha com o projeto político do deputado para o futuro.

O caso do PC do B é um pouco mais complicado, No plano nacional, há uma aproximação do partido com o PSB, liderada pelo governador Flávio Dino, do Maranhão, que quer se apresentar como uma alternativa de esquerda ao PT e que declarou, neste fim de semana, que seu desejo e criar um tipo de “MDB de esquerda”, amplo e moderado.

No estado, o PC do B é tradicionalmente aliado do PT, desafeto da prefeita e sondado para uma aliança em torno da candidatura do deputado Daniel Zen à prefeitura, O vereador comunista Eduardo Farias já foi líder da prefeita na Câmara e apoia as medidas do município no combate ao COVID. Com a proximidade de Socorro com o governador, a posição do partido ainda é um enigma. Mas a saída de Gladson do Progressistas pode ajudar e justificar uma possível aliança.

O PSDB vive uma situação interessante, Seria oposição ao governador na eleição da capital e em alguns municípios do interior, mas não deve perder espaço, em razão da presença do vice-governador Rocha, que embora tenha deixado a legenda, ainda é o grande de cacique tucano no Acre. O partido terá que separar a campanha que se avizinha polêmica na capital, o apoio a seu candidato Minoru Kinpara em Rio Branco e a Fagner Sales em Cruzeiro do Sul, com a boa convivência com o governador.

O MDB tem duas opções, Na primeira, parte do partido gostaria de uma proximidade com Gladson, até em busca de espaços no governo. Outra parte, prefere uma situação de mais independência, com vistas à eleição de 2022, A candidatura a prefeito do deputado Roberto Duarte em Rio Branco é um empecilho à composição do partido tanto com o governo, quanto com a oposição nova e também com a esquerda. Tudo indica que o partido vai continuar sua tradicional política de não pôr todos os ovos na mesma cesta e jogar cm as conveniências.