Sobre áreas verdes e áreas alagadas

* Ecio Rodrigues

Principalmente na capital, Rio Branco, mas não unicamente: em todos os municípios do Acre constata-se uma carência generalizada de áreas verdes. Na relação número de árvore por habitante, as cidades apresentam indicadores bem inferiores ao que preceitua, por exemplo, a Organização Mundial de Saúde, OMS.

Os índices são alarmantes. Enquanto o parâmetro mundial estabelece um mínimo de 12 metros quadrados de área verde por habitante (segundo a OMS), em Rio Branco essa relação cai para menos de um metro de área verde por pessoa – isso em espaço público, sem considerar, é claro, as mangueiras que ainda resistem nos quintais.

Significa que, nos espaços públicos ou do lado de fora das residências, mais de 80% da população não pode contar com a sombra de uma árvore para se abrigar do sol.

Outro indicador insuspeito é o que mede a quantidade de árvores por metro linear de calçada. A Sociedade Brasileira de Arborização Urbana prescreve uma árvore para cada 10 metros de calçada. Embora não haja medição confiável, quem mora em Rio Branco sabe que é necessário percorrer muito mais que isso para encontrar uma árvore.

Se esses números impressionam, é igualmente admirável a extensão de terra que é inundada todos os anos, mesmo quando não sobrevém uma alagação na dimensão da que ocorreu em 2015.

Por outro lado, proliferam na zona urbana aglomerados humanos desprovidos de condições mínimas de habitabilidade. Esses aglomerados, note-se, se situam muitas vezes justamente nas áreas alagadiças.

Refeitas as condições de normalidade e prestada a devida assistência às famílias afetadas pela alagação, o momento parece ser oportuno para matar, como reza o dito, três coelhos com uma só cajadada: reduzir o número de pessoas atingidas todos os anos pelas cheias do rio Acre; limitar a quantidade de assentamentos precários que se espalham pela cidade; e ampliar a superfície de área verde disponível para a população.

Não precisa ser um estudioso para perceber, a título de exemplo no caso de Rio Branco, que o trecho localizado ao lado direito da quarta ponte (sentido centro-segundo distrito), uma das áreas de escape do rio e por isso mesmo uma das primeiras a inundar em todas as cheias, deve ser desocupado e reservado para esse fim – ou seja, para receber a água que transborda nas épocas de aumento de vazão.

De uma só tacada, três problemas solucionados.

Existem pelo menos dois mitos que cercam a questão alusiva à desocupação de áreas inadequadas para a habitação. O primeiro e mais comum assume que as pessoas não querem sair; o segundo, que elas voltam. A conclusão, inevitável, é que não tem jeito: a culpa é efetivamente dos indivíduos, ou de uma tradição cultural lamentável.

Todavia, estudos demonstram o contrário, isto é, em geral quem vive em áreas impróprias anseia sair dali. As cidades brasileiras, por seu turno – e Rio Branco não é exceção –, exibem inúmeros casos de regiões degradadas que foram desocupadas, urbanizadas e convertidas em parques, jardins, praças, enfim, em áreas destinadas ao uso comum, que agregam qualidade de vida aos centros urbanos.

Tudo depende apenas da capacidade de gerenciamento dos gestores públicos e da vontade para fazer cumprir decisões que podem pôr em risco a principal moeda dos políticos: o voto.

Rio Branco, a única quase metrópole do Acre, não pode ostentar índices irrisórios de área verde, da mesma maneira que não deveria se conformar diante das alagações anuais. Alguma solução é possível.

A influência da quantidade de área verde na sensação térmica é fato irrefutável. Na Amazônia, a demanda por áreas verdes se intensifica no auge do verão, em setembro, quando o calor é escaldante e as sombras, inexistentes.

* Professor Associado da Universidade Federal do Acre, Engenheiro Florestal, Especialista em Manejo Florestal e Mestre em Política Florestal pela Universidade Federal do Paraná e Doutor em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília.